“Quando o coração do governante esta envolto em trevas, o clamor do povo sobe aos céus. A resposta da sagrada família virá, mas sua justiça nem sempre será como esperamos.”

Provérbio de  Tuansés, o pai.

O Norte

Pouco mais de sete dias de viagem é o que separa a gloriosa vida na capital, do esquecido e abandonado norte pantanoso. A tempestade implacável que vigiou Karraus em sua incursão nos porões da catedral ainda parece segui-lo como um vingador implacável.

O padre Jafar parecia ser o único satisfeito com a viagem, mesmo quando recebeu olhares de reprovação do clero e da nobreza em terras Mancaster, a grande casa nobre que guarda a fronteira norte da Prusilvânia.

As sete noites foram longas para o jovem cavaleiro, mas seus pesadelos pareciam ser amenizados com a presença de Jafar. Não tinha certeza disso, mas sentia como se o jovem padre pudesse entrar em seus sonhos – e ele podia.

O fim da chuva veio no mesmo dia em que a comitiva avistou os primeiros sinais de civilização. O sol esboçava sua luz sobre a estrada de terra batida e revelava uma porção de casas velhas, um poço no centro do que deveria ser uma praça, uma casa comunal caindo aos pedaços e um casarão bem conservado, digno de uma família abastada.

Não demorou até que os moradores se aglomerassem em torno da pequena comitiva. Os que estavam mais distantes se aproximaram ao ouvir o som da trombeta do soldado da casa Karraus. Os aldeões estavam mais curiosos do que assustados, pois sabiam que nada poderia tornar suas vidas mais miseráveis do que já eram.

O padre Jafar, com toda sua eloquência e trato social, anunciou a chegada do novo senhor da região e enfatizou o fato de que, tanto a coroa quanto a Santa Igreja estavam determinadas a prosperar a região novamente. Uma igreja deveria ser erguida na praça e oferendas realizadas aos deuses da Sagrada Família, pois havia chegado esperança e luz, onde residem o medo e as trevas.

 

Interlúdio sombrio

Os lordes da casa Griffon comandam o Porto Real desde o primeiro dia de vida da Prusilvânia. Em verdade,  dos porões de suas casas coloniais surgiu a conspiração que encerrou as Guerras de Unificação. Realmente parecem verdadeiros os boatos sobre um espirito de conspiração e ladinagem correndo pela cidade e impedindo aqueles que querem seguir os princípios da lealdade, honestidade e ordem.

No campanário da igreja, no alto do Monte de Deus, os cinco homens encapuzados olhavam para as vielas imundas de Porto Real. Para eles não existiam dúvidas quanto ao domínio que a corrupção e podridão exerciam sobre a cidade. Para os membros da Confraria, a cidade não passava de um covil de criminosos e por isso merecia o Expurgo – Hoje!

Apesar dos métodos questionáveis, para Zed a Confraria era como uma família e o fato de ser uma organização secreta de assassinos não era um problema. Sua alma sofria mesmo quando o zelo de seus líderes, pelo ideal purificador do reino, parecia abalado. A civilização deveria ser liberta da corrupção através do Expurgo, todavia Zed sentia que a própria Confraria estaria sucumbindo à corrupção gradualmente. Justificando seu próprio Expurgo.

Era o mais jovem e o menos poderoso, mas dentre todos era o mais querido. Seu ímpeto jovial e o brilho nos seus olhos lembrava a todos sobre a essência da organização. A Confraria era tudo que ele tinha desde a infância e preferia destruí-la a permitir sua corrupção. Quando foi adotado por um dos membros, se tornou filho de todos e lhe magoava perceber que seus “pais nas sombras” estavam perdendo o rumo que deviam seguir.

Os cinco homens só desceram do campanário quando viram as luzes da explosão no coração da cidade, mas havia algo errado! Zed deveria colocar os explosivos nos navios dos Griffon, mas a explosão veio da base da Confraria na cidade. Demorou pouco tempo para eles perceberem o que aconteceu e somente no dia seguinte tiveram noção do prejuízo causado pelo seu “caçula”. Armas, ouro e documentos importantes sumiram e uma caçada nas sombras se iniciou. Os homens invisíveis da Confraria perseguiriam seu filho pródigo por todos os cantos do reino, que dorme sem imaginar que uma organização assim existe.

A decadente cidade de Porto Real, inspirada no trabalho de Ben Wootten.

Reconhecimento de campo

A paupérrima vila vem perdendo habitantes a cada ano, viajantes são raros, nunca firmam raízes e nenhuma rota comercial passa pelo local. A extração de turfa do pântano era a maior fonte de renda, mas parece que apenas uma família continua com as atividades e há suspeitas de que isso envolva drogas ilícitas. Por tudo isso, a economia vai de mal a pior e a esperança do povo desvanece progressivamente.

Prosperar estas terras já foi missão de outros nobres no passado, mas todos falharam vergonhosamente. O povo local diz que há uma maldição sobre a casa grande e que uma bruxa do pântano impede a vila de prosperar, mas seja qual for a verdade, o fato é que a cada ano a região pantanosa se expande de forma sobrenatural e Jafar parece ansioso para descobrir o que está por trás disso.

A superstição local diz que depois da construção de um forte no centro do pântano, uma bruxa surgiu e ofendida pela invasão de seu território, amaldiçoou os invasores. Graças a sua magia negra, o pântano se expande até o dia de hoje. Este forte escondido no pântano seria o local perfeito para ocultar a prática das artes proibidas de Jafar. Espiões da igreja ou da coroa jamais descobririam qualquer coisa que acontecesse nas madrugadas escuras do pântano.

 

A festa da Chegada dos novos Deuses

O dia da Chegada dos Novos Deuses é a data mais importante do calendário Prusilvaniano, pois marca o dia em que os Deuses da Sagrada Família retiraram a lua dos céus e salvaram o povo da insanidade do profeta Tuansés. A teologia revela que foi através de assombrosos tremores e lava ardente jorrando diretamente do abismo, que os deuses sacramentaram o nascimento de uma nova igreja, trina e santa. Por conta da importância deste dia, Byron gastou seus últimos recursos convocando uma caravana festiva das terras de sua família. O povo teria uma festa!

Na primeira quinzena dedicou seu tempo na construção da igreja e toda a estrutura de tendas, picadeiro e arquibancadas para o festival. O povo parecia motivado e esperançoso, mas havia um intento maior por traz deste festival, o recrutamento secreto de expedicionários para explorar o pântano assombrado. O jovem cavaleiro e seu conselheiro de batina precisavam averiguar as condições do forte abandonado, fora a curiosidade que tinham sobre o potencial mágico existente no pântano. Sendo assim, enviaram mensagens para convocar a caravana de artistas, mas também mercenários de confiança da família.

O festival foi um sucesso total. A estalagem ficou lotada, a taverna esgotou o estoque de bebidas e os aldeões tiveram quatro noites de entretenimento com direito a artistas de teatro, músicos, palhaços, trapezistas e acrobatas. Na caravana de artista vieram quatro homens que pareciam dominar outras artes, mais voltadas à aventura do que ao divertimento pueril, e enquanto o povo festejava, seu novo senhor negociaria os termos da expedição com eles.

 

Mapa da região conhecida pelos jogadores.

 

Os expedicionários

Desde de que entrara na taverna, Jafar se impressionou com a exuberante boa forma de Salazar, o negro que auxiliava o taverneiro. Era estrangeiro, com certeza, mas parecia simpático e tinha o respeito dos locais. Este seria um bom sujeito para garimpar informações sem levantar suspeitas e com seu tamanho, daria um bom soldado expedicionário também.

Da comitiva montada, Salazar seria o único a residir na vila, pois os demais vieram na caravana. Dois dos viajantes são mercenários natos, o chefe da segurança da caravana Durotan, era um homem gigante em uma armadura completa que ostentava um tabardo da casa Barraus – extinta nas Guerras de Unificação – e Tristan, era um guia falcoeiro que conduzia caravanas pelo reino todo, com a ajuda de seu falcão de estimação e arco longo. Superando as expectativas de Sir Byron com relação aos homens que observou ao longo dos quatro dias de festa, outros dois homens notáveis foram descobertos por acaso.

Tristan e Durotan não perceberam que durante toda a viagem havia um clandestino na caravana. O jovem era furtivo como um gato e muito astuto para sua idade, sendo descoberto apenas quando tentou espionar a tenda particular do nobre, durante as negociações da expedição. Salazar sentiu a presença de Zed e o pegou de surpresa entre barris de vinho. Para o espanto de todos, o menino estava fortemente armado e conseguiu se esgueirar pela cidade por todo este tempo sem chamar atenção de ninguém. Após uma rodada de ameaças e agressões, disse estar fugindo de assassinos de uma organização secreta chamada de Confraria, que atua nos bastidores da corte real.

Enquanto Byron  decidia o que fazer com o jovem penetra, uma confusão surgia no picadeiro central, com direito a gritos de dor e uma comoção do povo em aflição. As tochas trêmulas que iluminavam a praça revelavam a desgraça de um trapezista tombado no chão. Esta distração teria passado despercebida se não fosse pela imediata intervenção de um frei, que até então não passava de um bêbado com uma carroça de barris. O corpanzil avantajado sob o manto e a perfeita execução dos primeiros-socorros deram a Byron a certeza de que já havia descoberto o médico da comitiva. Frei Tanner era alto e muito robusto para ser um frei, mas isso não importava se pudesse exercer medicina e empunhar uma arma.

 

 

Sir Byron Karraus, padre Jafar, pirata Salazar e o guia falcoeiro Tristan.

Zed o jovem assassino, Durotan o gigante de ferro e frei Tanner, o cervejeiro.

 

Sem dinheiro para negociar uma recompensa, a moeda de troca foi sua influência política no reino. Tristan teria o alvará de Senhor das Estradas, um coletor de pedágios e administrador do cronograma de caravanas. Salazar seria o novo dono da casa comunal abandonada, tendo autorização para erguer  uma taverna nova. O gigante Durotan gostaria de ser o xerife da região, liderando e treinando a milícia local em troca de um bom salário e alguma honra entre o povo. O frei ficou satisfeito com a possibilidade de montar uma escola para crianças, uma enfermaria para o povo ou uma cervejaria, tudo isento de impostos. Quanto ao misterioso jovem aprendiz de assassino, não receberia nada além de um refúgio seguro e garantia de sigilo sobre a sua presença na região.

Assim Sir. Byron Karraus conseguiu organizar seu corpo expedicionário para uma jornada incerta no meio de um pântano, supostamente amaldiçoado, que esconde algum mistério sombrio e caótico.

“A Santa Igreja é trina em sua composição, uns atuam sobre a doutrina, outros na liturgia e a inquisição executa o juízo divino sobre os abomináveis praticantes da magia, a arte nefasta que contraria a vontade dos deuses!”

1º Sermão oficial de Padre Jafar na sua nova paróquia.

 

É isso aí pessoal, espero que tenham curtido o post. Se quiser spoiler ou apenas entender um pouco mais deste cenário, confere este artigo onde mostro como tudo foi criado pelos próprios jogadores.

Em breve eu volto pra contar mais sobre essa campanha doida, incluindo a participação do último jogador que entrou no time para explorar os hexágonos do norte da Prusilvânia.

Até a próxima.

 

PEP