Como mestre Old School, eu detesto ver os jogadores buscando a solução para alguma situação na ficha de personagem. Por isso estou acostumado com jogos sem perícias e habilidades poderosas, entretanto eu entendo totalmente a importância e o valor que estes features adicionam ao jogo. Mesmo preferindo ver os jogadores tirando as soluções a partir de suas ideias criativas, ao invés de garimpá-las em suas fichas de personagens, entendo que muita gente gosta de perícias por adicionarem mais customização, granularidade e profundidade aos personagens.

É por isso que hoje eu irei falar sobre uma abordagem, que eu julgo muito mais elegante para perícias. Uma abordagem que não escreve na pedra o que as perícias podem fazer e não tornam as perícias em algo rígido e pontual. Estou falando do sistema de carreiras de Bárbaros de Lemúria, um RPG de espada e feitiçaria, bom pra cacete, que será lançado no Brasil ano que vem!

Como funcionam as carreiras?

As perícias em muitos sistemas de RPG não passam de bônus numéricos que podem se adicionados a uma rolagem específica. Sendo assim, a cada situação de tensão ou conflito, os jogadores buscam suas perícias para obter chances maiores de realizarem algum feito. Isso não é ruim, mas para mim traz dois problemas: Engessam os jogadores nos limites de suas perícia, quebram o clima de tensão, toda vez que alguém precisa consultar sua ficha de personagem para decidir o que irá fazer, sem falar que listas de perícias podem tender ao infinito!

Área de perícias nas fIchas de Pathfinder e D&D5 comparadas com as carreiras de BoL

 

As carreiras substituem as perícias. Ao invés de uma lista interminável de perícias bem definidas, com todos os seu usos e limites estabelecidos, você usa uma lista de carreiras, ocupações, profissões e antecedentes que quiser. Você não tem perícias, mas carreiras e a cada rolagem que fizer poderá receber um bônus se tiver alguma carreira relacionada à atividade feita.

– Pô! mas isso não é a mesmo coisa que uma perícia?

– Eu diria que sim e que não!

Eu diria que sim, pelo fato de que você precisa escolher suas carreiras como quem escolhe perícias, distribuir pontos nelas como faz com as perícias, utilizar mecanicamente como usa as pericias; mas diria que não, porque elas não definem apenas o que seu personagem pode fazer, mas quem ele  é, de onde veio e o que fez de sua vida até o primeiro dia de aventura. Na realidade, quando você escolhe suas carreiras, já tem quase todo o background definido para seu personagem.

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Você sabia que Conan foi ladrão, mercenário, pirata, cavaleiro e rei?

A grande diferença é que você pode usar uma mesma carreira para infinitas coisas. Ao invés de escolher pericias genéricas como diplomacia, etiqueta e lábia, você poderia apenas escolher a carreira nobre, cortesão, sacerdote, político ou repórter. Veja bem, qualquer carreira pode dar bônus em qualquer rolagem, desde que o jogador consiga explicar a utilidade da carreira na ação. Terão situações onde a carreira vai te ajudar e outras onde ela não irá. Nesta abordagem não existe rigidez e nem certeza, você precisa ser criativo.

Um personagem com a carreira soldado poderia receber bônus para identificar estilos de esgrima, origem de armas, pontos fracos nas tropas inimigas, preparar armas de cerco, compreender estratégias militares, lembrar de histórias de guerras, aguentar marchas forçadas, avaliar qualidade de equipamentos de combate e até mesmo se impor socialmente caso seja oficial investido de autoridade. No final, é como eu disse, toda carreira possui um sem-número de usos possíveis, vai depender de cada um.

Saindo de Lemúria

Em Bárbaros de Lemúria você tem uns 4 ou 5 pontos de carreira e deve distribuí-los entre as quase trinta carreiras do livro, mas você pode inventar suas carreiras facilmente, pois elas não são rígidas e por isso não exigem regras específicas. Sendo assim, facilmente você poderia dizer que seu Guerreiro é da Patrulha da noite (GoT) e receber um bônus igual ao seu nível de carreira ao tentar viajar pelo frio, lutar contra selvagens, lidar com os rigores do norte e ter percepção maior nas noites frias de nevasca. O mais legal é que você vai descobrindo outros usos para a carreira conforme o jogo avança.

Acho que você já entendeu a proposta do post, então agora eu irei retirar esta mecânica de seu jogo original e apresentar 10 sugestões para usá-la em outros sistemas.

1 – Bônus simples

As carreiras devem ter seus níveis convertidos em bônus de +1 nos testes. Esta regra se aplica bem em D&D e seus derivados que usam d20. É a forma mais simples de eliminar as perícias e usar as carreiras.

2 – Escala de dados

 As carreiras não podem passar de 2 níveis, sendo que cada nível muda o dado da rolagem para um com mais faces. Se seu jogo utiliza 2d6, com uma carreira você poderia rolar 2d8 ou 2d10. Se o jogo usa parada de dados, você pode aumentar o número de faces dos dados ou adicionar dados extras à rolagem.

3 – Rolagem extra

As carreiras não possuem níveis, basta ter uma carreira para ganhar uma rolagem extra do teste. Jogue o dobro de dados que seu jogo define e escolha o melhor resultado. Se quiser usar níveis vai ter que aguentar jogador rolando testes 3 ou 4 vezes. Isso pode ser um saco em jogos com parada de dados.

4 – Margem aumentada

Adicione um dado ao seu resultado para os testes envolvendo as carreiras. Talvez 1d6 seja uma boa para jogos D20, mas para jogos que usam granularidade de resultados, você poderia avançar 1 grau no resultado e para jogos como Vampiro, poderia conceder um sucesso grátis ou dois em cada rolagem.

5 – Economia de recursos

As carreiras poderiam ter níveis que representariam o número de recursos grátis que você teria para executar ações pertinentes. Talvez sua carreira lhe garanta um uso de ponto de sorte ou ação grátis, ou um sucesso no teste evite que eu gaste força de vontade ou outro recurso consumível do personagem.

6 – Resultado mínimo

Nesta abordagem as carreiras garantem um valor mínimo nos testes, evitando falhas catastróficas ou vexatórias. Num jogo como GURPS, você ignoraria qualquer resultado 6 nos dados rolados, transformando-os em 5, automaticamente ignorando as falhas mais críticas. Em D&D você poderia dizer que qualquer resultado abaixo de 5 vira 5.

7 – Explosão de dados

Aqui nós aumentamos as chances através da explosão de dados. Se você tirar o valor máximo do dado, pode jogar novamente e somar seus resultados. Isso pode significar um contador de sucesso extra, mas em outros jogos pode proporcionar somatórios surreais e incríveis. Vai do gosto do freguês né!?

8 – Sucesso grátis

E se você deixasse o jogador determinar que simplesmente passou num teste? Talvez você possa dizer que cada nível de carreira lhe garante um sucesso completo em uma rolagem, talvez em rolagens com dificuldade simples apenas, ou quem sabe dois usos sejam gastos para testes com dificuldade maior?

9 – Redução de dificuldade

 Se o seu jogo usa um sistema de dificuldades variadas, você pode dizer que cada nível na carreira reduz um nível das dificuldades dos testes relativos à carreira.

10 – Controle narrativo

Você também pode dizer que as carreiras permitem aos jogadores inserirem verdades extras em jogos com narrativa compartilhada. Assim, mesmo que seu resultado não seja o melhor, você pode adicionar mais elementos à narrativa, o que justifica realmente sua carreira.

 

Old Dragon by Aktheneroth

Será que o velho dragão tem  carreira de churrasqueiro? Arte de Aktheneroth no deviantart

Como eu usei carreiras em Old Dragon

Agora eu vou compartilhar com você a abordagem que eu apliquei em uma mesa de Old Dragon e depois noutra de AD&D. Claro que esta abordagem vale pra outros retro clones de D&D e para o próprio dito cujo também.

Pontos de carreira

Cada personagem inicia o jogo com 4 pontos de carreira, que devem ser gastos comprando níveis de carreiras.

Número máximo de carreiras

Cada personagem tem um limite de 5 carreiras. Você pode deixar carreiras “em branco” na esperança de aprender alguma legal no meio do jogo, o que poderia simular classes de prestigio por exemplo.

Níveis das carreiras

Cada carreira tem um nível que varia de zero a 5, mas nenhuma pode passar de 3 na criação de personagem. Carreiras com nível zero não adicionam bônus, mas podem ser melhoradas sem a necessidade de um professor ou tempo de prática prolongado entre as aventuras.

Evoluindo as carreiras

A cada 4 níveis de personagem, 1 ponto de carreira extra é concedido aos personagens. Estes pontos extras só podem ser gastos nas carreiras existentes, dai você entende porque ter carreira de nível zero.

Novas carreiras

Para conseguir uma carreira nova no meio do jogo, é preciso encontrar um treinador, professor, mestre ou apenas se submeter a um estilo de vida condizente com a carreira, por um tempo significativo, conforme o acordado com o mestre do jogo.

Efeito das carreiras

Sempre que um jogador faz um teste de atributo, eu permito que ele receba um bônus igual ao nível da carreira, caso consiga me explicar como a carreira poderia lhe ajudar no momento.

Exemplos de carreiras

Soldado, gatuno, astrólogo, sacerdote, caçador, pirata, alquimista, menestrel, curandeiro, selvagem, fazendeiro, ferreiro, marujo, gladiador, nobre, mendigo, escravo, mercenário, assassino, cultista, mercador, mascate, escudeiro, cavaleiro, cozinheiro, domador de feras, eremita, sábio, artesão, artista, boticário, profeta, druida, minerador, amazona e artista marcial.

 

Bom, é isso ai meu povo. Esta foi mais uma sugestão de regra caseira pra gente matutar e lapidar. Isso se você não curte as perícias do seu jogo.

Se você aplica alguma outra regra caseira, compartilha com a gente. Pode ser que ajude alguém!

Fiquem na paz e bons jogos.

 

PEP