Com vocês o quinto relato desta campanha sandox/hexcrawl de Fantasia Sombria

“O mal que rogastes sobre estes reverberará sobre ti. Teu descanso findará quando o deles iniciar, este é o preço para que eu te livre de teus inimigos hoje”

Haaashaastaak, o senhor dos lagartos.

O dia seguinte

O sol voltava a brilhar entre a copa das árvores e parecia que a chuva demoraria para retornar ao pântano. Entre os sons típicos da vida no alagadiço estavam os gemidos de dor de Salazar, o pirata negro. Estava ferido e quase não conseguia se mover depois de cinco dias desacordado no pântano. Escondidos nos galhos mais altos das árvores, tudo graças ao providencial zelo de Zed, o ex-assassino da Confraria, ambos concordaram em voltar a marchar.

Caminhando lentamente, conforme se apoiavam um no outro, Zed e Salazar encontraram o rastro de sangue e morte deixado nas ruínas do forte pantaneiro. Ali seguiram para o norte, seguindo as pistas deixadas pelo Padre Jafar, que sabiamente fez marcas religiosas nas árvores, pois era um sinal que nenhumas das blasfemas formas de vida do pântano usaria.

Burburinhos e gritos são discernidos ao longe. Byron discutia, como sempre, com o frei Tanner. Gritos de criança ecoavam estridentemente por entre as árvores e qualquer um poderia notar um falcão voando em círculos sobre uma clareira. Ali a dupla de sobreviventes andarilhos reencontrariam seus aliados, mas parece que mais alguém os havia encontrado também. Era uma figura estranha, de pele branca como a neve, careca e com pele semelhante a escamas de lagarto. Ninguém o havia notado ainda, mas ele cambaleava como um moribundo, embora seus olhos brilhassem como a ira do fogo.

Interlúdio retrospectivo

Os assassinos da Confraria não costumavam agir em grupo, mas parecia que sua aproximação com os patriarcas da embrionária igreja trina os tornaram num grupo de extermínio covarde. Uma guerra se erguia no horizonte e ninguém imaginava que os pacatos herdeiros da doutrina do profeta Tuansés seriam a força motriz de tanta matança.

A caçada já durava dias, desde as florestas ao sudeste de Mancaster, cruzando pelos outeiros desolados e atravessando as águas do antigo Rio Negro. O alvo era sagaz e se antecipava a todas as emboscadas da Confraria, mas não entendia como sempre estavam no seu rastro. Não tendo mais para onde fugir, rumou para o norte, para as regiões pantaneiras onde sua família governava uma terra pobre, mas com voz política e poder para protegê-lo.

Esta foi a única ingenuidade de Legba, acreditar que poderia haver diplomacia com a Confraria ou a recém organizada Igreja trina, que adorava aos Novos Deuses e seguia doutrinas preconceituosas que dariam origem aos movimentos mutahamil (repúdio ao mágico).

Na mansão de sua família rica ele não encontrou abrigo, mas traição. Descobriu da pior forma que seus parentes eram os informantes de seus algozes. Um conluio político garantiria à sua família uma posição de renome, no vindouro império que a igreja vinha trabalhando para erguer. Tudo que deveriam fazer era ajudar na captura do bruxo mais poderoso que andava pela região, o seu primogênito e pródigo filho, doravante nomeado Papa legba.

 

Imagem relacionada

Haaashaastaak é o Senhor dos Lagartos e patrono das bruxas da floresta (arte de Jon Volden)

Este não era o seu nome realmente, mas Papa Legba fora o nome que recebera de suas mestras quando conquistou o respeito de seu patrono, o senhor dos lagartos. Sendo o único homem dentro do círculo de bruxas, ele herdaria o cetro de Haaashaastaak um dia e perpetuaria uma linhagem de conjuradores, poderosos de mais para o mundo, que a igreja trina construía, suportar.

A mansão estava infestada de assassinos da Confraria e nenhum dos guardas defendeu o primogênito de seu lorde. Foi então, que movido pelo ódio e mágoa, o bruxo decidiu que não morreria ali. Fanáticos de uma fé mergulhada em mentiras e uma família que barganhava com a vida do seu herdeiro não deveriam ficar impunes ante sua morte.

A caça viraria caçador e os predadores conheceriam a fúria da presa acuada.

Já tinha tempo que percebera quanto de mana emanava do pântano e de fato havia um Silo mágico ali. Foi então, no charco, que Papa Legba conjurou o maior feitiço de sua vida.

Em um ritual poderoso ele sugou praticamente toda a mana do pântano para transformar toda a sua família e os assassinos da Confraria em bestas animalescas e irracionais. A energia arcana foi mais intensa do que previa e sua energia vital teria sido drenada se não estivesse num pântano, território preferido do seu patrono sobrenatural.

No final, os seus inimigos foram amaldiçoados com uma existência miserável no pântano e Papa Legba teve seu corpo engolido por uma árvore que o manteria em transe até que a energia do feitiço se esgotasse. A maldição que trouxera sobre seus caçadores se tornou sua maldição também. Caprichosas são as artes mágicas e os poderes superiores que as ensinam a mortais.

O que o herdeiro do cetro de Haaashaastaak não sabia é que o Silo mágico era na verdade uma fenda para o abismo e que a mana que usou no feitiço era na verdade a sombra do Senhor dos Demônios do abismo. Seus inimigos estavam perdidos para sempre, mas um mal ainda pior pairava sobre a face da terra…e tudo era culpa sua!

Deste dia em diante o o pântano começou a expandir-se misteriosamente sobre o mundo e a fenda a abrir-se cada vez mais e mais.

 

Mapa da região conhecida pelos jogadores.

Encontros e desencontros

O pequeno menino ainda estava em estado de choque com a quebra da maldição e sua voz estridente não dava paz aos ouvidos da comitiva, mas um de seus gritos colocou todos em estado de alerta – Irmão – dizia sua voz estridente. Todos se colocaram de pé e notaram a aproximação de um homem de aparência estranha, vestido com roupas velhas e portando um cajado numa mão e um lagarto negro no ombro.

Zed e Salazar, que estavam escondidos, renderam o misterioso homem pelas costas, enquanto Byron e Durotan se aproximavam surpresos e com espadas em punho. Houve muita tensão e certa hostilidade, mas por ser parente do jovem Cleb, a ameaça deu lugar à curiosidade. Todos queriam ouvir a história do homem depois que recuperasse suas forças, mas apesar do cansaço sua mente continuava sagaz e perspicaz.

Parte de seu grande poder havia desaparecido, mas seu sexto sentido continuava afiado. Após poucas palavras e com um olhar perscrutador sobre a comitiva, Papa Legba intui que Byron era um amaldiçoado sétimo filho de um sétimo filho, Frei Tanner um sincero porta-voz do Deus-que-anda e que a sombra do Senhor dos demônios do abismo continuava a crescer e espalhar sua influência maligna.

O grupo voltou a caminhar e o menino parecia estranhar a frieza de seu irmão, mas Papa Legba não era mais o mesmo. As lembranças da traição de sua família e o despertar de um sono de setenta anos, foram mais fortes do que tudo. Ele compreendia a inocência do seu irmão caçula e era grato pela quebra da maldição, que pôs fim à sua hibernação, mas ele sabia a origem de todo o mal na região, mais que isso, sabia que era o culpado por tudo isso…e este fardo lhe pesava tanto quanto a morte.

O retorno da comitiva

Após 10 dias de viagem a comitiva já tinha explorado boa parte do pântano, mas tanto tempo longe da civilização e o contato prolongado com coisas sobrenaturais cobram um preço muito alto. Mesmo na segurança do acampamento, nenhum dos expedicionários voltaria da mesma forma que adentrou ao charco maldito. Após tanta chacina, feras batráquias, homens reptilianos, quebras de maldições, aranhas gigantes e morte de companheiros, nada poderia garantir a estabilidade mental. Acharam milhares de moedas de ouro num baú, mas deixaram parte de suas almas na umidade daquele lugar.

A sanidade nestes momentos é o bem mais precioso e parecia que todos voltariam mais pobres.

Pouco se falou no caminho de volta. Cleb ouvia as tradições da velha religião de Frei Tanner enquanto Jafar e Byron se entreolhavam condenando a heresia do frei. Tristan guiava o grupo com seu falcão enquanto Zed, Salazar, Guilbor e os demais apenas contavam nos dedos cada milha que faltava para saírem daquele lugar maldito.

O bruxo Legba ainda questionava a veracidade dos fatos decorridos no período de seu torpor. Não cria que a igreja realmente conseguira tanta força ao ponto de consolidar os reinos livres num império chamado Prusilvânia. Isso confirmou suas suspeitas sobre as articulações políticas entre nobres, grupos de assassinos e mercadores.

O pior de tudo era imaginar que fim tivera o seu círculo de bruxas na floresta, na verdade o baque veio quando soube que sequer existia a floresta. A santa Igreja Trina da Grande Família elevara os movimentos mutahamil ao ponto de instituir uma inquisição bem articulada e organizada.

Despertara quase um século depois para testemunhar uma nova era de Trevas.

 

“Setenta anos se passaram e a igreja conseguiu dizimar os únicos que seriam capazes de deter o avanço da sombra do Senhor dos Demônios do abismo. Estes são dias de trevas profundas!”

Papa Legba, o último bruxo da floresta e servo de Haaashaastaak.

É isso aí, as verdades estão vindo a tona e o cheiro disso tudo não ta nada bom. Se quiser entender um pouco mais desta campanha confere os outros reportes aqui.

Em breve eu volto para contar o que acontecerá após o retorno da comitiva e o que aguarda nossos aventureiros.

Até a próxima.

 

PEP