O desafio delas no RPG. Outro acerto crítico da Matadora de Tarrasques!

Um assunto que vai e volta nas comunidades de RPG é a questão da sexualidade e gênero de jogadores e personagens, seus lugares e representatividades. É triste ver que uma atividade que se diz aberta e colaborativa tenha ainda atitudes tão nocivas quanto à questão. Mesmo sabendo que o tópico é amplo e atinge diversas minorias, tratarei sobre o assunto do meu lugar, sendo mulher, jogadora e mestra.

Começando pelo começo

Meu primeiro contato com RPG foi definitivamente triste. Eu tinha cerca de 12 anos, ia com frequência à casa de um amigo e ele às vezes recebia visita de primos de outra cidade. Toda vez que esses primos vinham, eles mais um amigo se isolavam e jogavam um tal jogo misterioso chamado AD&D. Eu odiava, pois quando isso acontecia uma outra amiga e eu sempre éramos excluídas e muitas vezes alvos de risinhos.

Que gente e jogo mais bestas eram esses primos e o tal AD&D…

Um dia resolvi me meter: disse que queria os ver jogar. Com muito contragosto e argumentos como “Vais achar chato” ou “Não vais entender”, cederam. Entendi o jogo, me apaixonei, mas não me deixaram jogar. Meninas não podiam jogar aquilo…

Plantando sementes

Obviamente fui atrás e hoje estou aqui. Porém, o que quis dizer ao contar essa história é que, infelizmente, esse tipo de mentalidade existia e ainda existe. Apesar de podermos observar um discurso contemporâneo mais aberto e felizmente ser possível encontrarmos comunidades onde se prega a igualdade, o caráter preconceituoso em relação às minorias (se é que mulheres podem ser chamadas assim) é forte e contundente.

Na minha experiência como jogadora estive em mesas mistas, mesas somente de mulheres assim como algumas onde a maioria eram mulheres. Porém, a realidade é que, até hoje, sou a única mulher na grande maioria das mesas que participo ou participei. Dentro dessa realidade já sofri diversos tipos de preconceitos, vi preconceitos acontecerem e inclusive tomei atitudes ousadas quanto a isso (algumas, felizmente, deram muito certo).

Em meio à ousadia, criei personagens com teor feminista sem ao menos mencionar o termo. Foram casos interessantes. Divertidos até. Alguns funcionaram, outros não. Alguns renderam frutos, outros foram fracassos.

De certa forma, mesmo que não conscientemente, gosto de pensar que plantei algumas sementes sobre o assunto.

Sofri abuso também. Principalmente psicológico: por ser mulher, fui tratada de forma inferior como jogadora, como se fosse incapaz de compreender as regras, por exemplo, ou sendo excluída de alguma aventura, pois os outros jogadores não se sentiam à vontade comigo à mesa. Fui alvo de piadinhas machistas e situações constrangedoras exatamente por isso. Assim como vi jogadores homens com personagens femininas em situações nas quais suas personagens sofriam abusos pelos outros e tudo era encarado como algo engraçado. O jogo com ou para mulheres “é diferente”.

Por outro lado, hoje sou feliz em participar de grupos nos quais sou a única mulher (infelizmente) e neles eu jogo e mestro sem nunca ter sofrido qualquer tipo de preconceito ou ofensa. É gratificante e estimulante ser recebida com carinho por esses amigos.

Desculpas esfarrapadas e maldosas

Ao observar nas redes sociais discussões acerca da participação de mulheres em mesas de RPG, logo se vê que a realidade do preconceito se perpetua. Discursos muito enfáticos defendendo o estupro, piadas machistas ou mesmo que, se meninas querem jogar, devem estar preparadas para situações abusivas do tipo e aceitarem tal condição, num falho de argumento (dentre outros) de que “na época medieval era assim”.

Oras, não estamos no período medieval e estamos num jogo/mundo de fantasia acordado pelos envolvidos. O circulo mágico é criado por quem joga, e este representa um contrato ético que representa o pensamento das partes. A ideia da violência contra a mulher ser considerado algo “normal” de certa forma transfere o discurso para quem assina.

As aventureiras apresentam suas armas!

Também é incrível ver casos em que uma menina escreve algo sobre game design e é arbitrariamente criticada, enquanto um cara escreve exatamente o mesmo e é ovacionado. Ainda assim, de forma encorajadora, percebo que mulheres estão lutando por seu espaço num mundo majoritariamente masculino e existem pessoas e comunidades que estão abertas e dispostas para mudar o cenário.

Hoje em dia vários canais sobre o tema, painéis em eventos, blogs e outras formas de disseminação surgem para mostrar que existem mulheres atuantes e produtoras no meio. É muito bom e reconfortante perceber que essas ações existem e que garotas estão jogando e lutando por seu espaço no cenário dentro das comunidades, assim como existem jogadores, produtores, mestres e demais envolvidos que percebem, aceitam e estimulam essa realidade de forma legítima e amigável, muitas vezes enfrentando a situação de forma conjunta.

 

Assista o belo vídeo “Meninas Jogam RPG?” do canal Pausa para um café.

Mulheres jogam, RPG, mestram, produzem material e são atuantes. Assim como o preconceito ainda existe, os caminhos se abrem com esforço e em muitos lugares já estamos sendo aceitas e encorajadas a mais, buscando igualdade e a diversão sempre. Afinal, o RPG é um jogo colaborativo acima de tudo, que valoriza a interação e o trabalho em equipe. Nada mais justo e de acordo com jogo que as diferenças sejam superadas e aceitas, abrindo espaços para integração e diversão de forma igualitária.

Espero que cada vez mais, pessoas de todas as representatividades joguem RPG sem medo de sofrer preconceitos, sendo recebidas como são: pessoas.

Que todos tenham direito de se divertirem!

Bons jogos!