Elementos das narrativas em quadrinhos para usar nas mesas de RPG!

Entre 30 de maio de 03 de junho deste ano, ocorreu em Belo Horizonte o FIQ – Festival Internacional de Quadrinhos. Ao participar do incrível evento, não pude deixar de perceber as diversas ligações entre quadrinhos, jogos e animação tanto nos próprios produtos apresentados quanto nas mesas redondas realizadas durante o festival. Ao que me pareceu, as relações destes mercados é cada vez mais próxima, havendo convergências de processos, temáticas e até mesmo de profissionais que transitam entre as áreas.

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Mais quais seriam as relações entre quadrinhos e RPG? Muito mais que jogos claramente inspirados nas HQs como Supers, Icons, Mavel Super Heroes, entre outros do gênero, podemos encontrar nas estruturas narrativas, representações icônicas e espírito de aventura similaridades e inspirações que abrangem as áreas. Comentarei aqui alguns elementos dos quadrinhos que podem servir de inspiração para as mesas dos mais diversos estilos:

1. O andamento da história

Para aqueles mestres que curtem preparar as aventuras com cuidado, o uso de estruturas narrativas como as das histórias em quadrinhos pode ser de grande valia! Autores célebres como Scott McCloud e Will Eisner defendem que para contar uma história deve-se pensar no ritmo que se quer dar às sequencias de ação. Nas HQs isso se dá através do “tempo” entre cada imagem apresentada, usando da velocidade das passagens entre os quadros para dar essa sensação.

No RPG, apesar de não termos como determinar a velocidade do andamento da ação (afinal, os jogadores podem mudar completamente o ritmo pretendido pelo mestre), há como sugerir esse tempo através da dinâmica do jogo, intercalando situações mais narrativas e de conversação com sequencias de ação e combate. Quem sabe até mesmo exigir respostas rápidas dos jogadores para a sensação de urgência ou insistir numa mesma cena para dar a impressão de vagarosidade e cansaço. Pensar essa dinâmica também pode colaborar com atenção dos jogadores na mesa, não usando sempre a mesma estratégia e correr o risco de deixar maçante.

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2. A estrutura narrativa

A organização de uma história é fundamental tanto nos quadrinhos quanto no RPG. Como sempre, no RPG tende a ser mais difícil, já que os jogadores são participantes ativos, podendo ser de dois tipos:
Proativos – Aqueles que tomam iniciativas e buscam ação durante a aventura.
Reativos – São aqueles que esperam a ação ou conflito aparecer diante deles e reagem à indicação do mestre.
Independentemente do tipo que jogador que se tem na mesa, os dois tipos podem trazer situações complicadas para o mestre: os proativos podem tomar alguma atitude inesperada que faça com que os planos do mestre tenham que ser rapidamente reestruturados; já os reativos podem simplesmente não reagir ao conflito sugerido, necessitando de um empurrão para a história continuar.

Nos quadrinhos não há essa complicação, afinal, a história é dada pelo autor/roteirista, porém, as estruturas de roteiro de HQs podem ajudar e muito na preparação de uma aventura, evitando perda de foco.
Dennis O’Neil, roteirista da DC Comics e autor do livro The DC Comics Guide to Writing Comics, sugere a seguinte estrutura para um arco de história divido em atos:

Ato I
O gancho
Incitando o incidente
Estabelecendo situação e conflito
(tensão)
Ato II
Desenvolver e complicar a situação
(tensão)
Ato III
Eventos levando ao:
Clímax
(tensão)
Desfecho.

Essa estrutura sugerida por O’Neil, pode muito bem ajudar numa organização de aventuras para RPG. Geralmente, tendo esses momentos (não total direcionamento) bem claros, facilita a fluidez da narrativa, facilitando lidar (e aproveitar) os planos malucos dos jogadores e até mesmo fazer os mais reativos a agirem.

3. O espírito de aventura

Sabemos que tanto o RPG quanto as HQs são recheados de ação e heroísmo. Neste quesito, os quadrinhos podem fornecer diversos tipos de inspiração para histórias e ganchos diferentes e divertidos. Como mestre, sempre tento deixar a mente aberta para possíveis ideias que outros meios podem sugerir, alimentar o nosso “google pessoal” é essencial para quem lida com criatividade.

Assim como nos jogos, os quadrinhos possuem diversos estilos e gêneros narrativos. Em cada um deles, infinitas possibilidades de ideias se apresentam. O espírito de aventura, um problema conflito a ser resolvido, seja em proporções pequenas, gigantescas ou até mesmo pessoais perpassam os dois meios, servindo de alimentação de ideias de um para outro. Os quadrinhos, por serem narrativas prontas e em maior número, podem fornecer inúmeros subsídios nesse sentido.

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Finalizando, apesar de as formas que as histórias se dão nos RPGs e quadrinhos sejam diferentes devido a ação participante ou não do jogador/leitor, as temáticas e estruturas narrativas conversam, além de convergirem em diversos aspectos. Alimentar o imaginário é importante e divertido, portanto, nada mais agradável e útil que buscarmos inspiração nos meios em nossa volta! Boas leituras e bons jogos!