Um conto escrito pelo autor de Thordezilhas, exclusivamente para GDM!!! 

Este post foi idealizado e escrito por Luiz Cláudio Gonçalves

O Autor de Thordezilhas, UD1e Thordezilhas: Rum & Sangue!

Obrigado por aceitar o convite da Guilda dos Mestres

Salve, salve galera!

Aqui é Luiz Claudio Gonçalves – autor do UD1, Obscura e  Thordezilhas Sabres & Caravelas – em nossa primeira contribuição para o Guilda dos Mestres. Faremos este post em duas partes, por agora apresentaremos este conto sobre um terrível encontro em alto-mar. Na segunda, apresentaremos regras para o mestre utilizar a tal criatura.

Aproveitamos para pedir que não deixe de conhecer nosso site o Universo-simulado.com, o grupo do Thordezilhas no Facebook e o novo lançamento do Estúdio Universo Simulado: “Thordezilhas Rum & Sangue” – em Abril, no Catarse.

 


Thordezilhas, pouco passado e nenhum futuro

 


Davor, o quebra-cascos. O pequeno Jimmy sentia um calafrio percorrer sua espinha sempre que seu velho pai dizia aquelas palavras. A criatura mais ameaçadora que sua criatividade juvenil poderia conceber.

“Pior diabo que Leviatã despejou nestas bandas de gente viva”. – Dizia o contramestre. “Rasteja sobre o mar, feito uma sombra sem luz.” Explicou a elfa que cuidava da artilharia.  “Se tu avistar o olho verde do bicho, então já era. Coisa feita!” – Falava um dos marujos. “Seu pai é louco por caçar demônios, menino. – Explicava seu tio por detrás do cachimbo – “vai matar a todos nós”.

O capitão nunca explicava o motivo do seu intento. Nem quando indagado. Seu cavanhaque grisalho permanecia impassível enquanto a face pétrea fitava o horizonte sem nada responder. Os poucos que conheciam este ilustre lobo do mar notavam sua destra acariciando suavemente o pequeno anel de prata da sua canhota sempre que a criatura era mencionada.  Coisa alguma se falava sobre o assunto.

Naquela manhã os marujos acordaram cedo. Mal o sol efervescia as águas e todos estavam em seus postos. Jimmy saiu de seu gabinete atônito pelo vigia não ter dado o alarme. Na verdade, ninguém falava no convéns. Era um pavor surdo, como quando a deusa Salácia meche seu caldeirão para fazer tempestades. “O que está havendo?”  Sussurrou Jimmy ao seu tio.

Não houve resposta. Apenas aqueles olhos esbugalhados, vermelhos de nervoso, que fitavam o adiante, enquanto sua face se transformava em uma carranca rígida, semelhante aos nódulos de uma arvore antiga. Jimmy jamais viu medo naquele homem. Era pavoroso ver o desespero no coração do valente.

Buscou a mesma direção do companheiro. Uma nau estava a pico bem diante deles. Havia muita fumava e, vez por outra, um destroço trombava rude ao casco do navio. O manto das águas mesclava verde-mar com um gosmento escarlate. Pedaços de gente boiavam aqui e ali, indecifráveis entre braços, pernas ou cabeças.

E lá estava a odiosa criatura. Feita de escuridão e angustia. Não era sombra, pois a luz não o afetava. Tampouco fumaça, pois o vento não lhe fazia qualquer serviço. A coisa parecia serpentear à face das águas e, em dado momento, o imenso olho de um verde pavoroso se fez em seu ventre. Seguido por uma bocarra faminta que salivava em direção a eles.

– Façam fogo! – Berrou o capitão. Único cuja fronte não aderia ao medo e – para o horror do Jimmy – parecia haver algum contentamento.

Trovões dispararam do navio, tremendo todo o convéns enquanto lançava bilhas de aço sobre o monstro. Para desesperança da tripulação, o chumbo atravessou a criatura pousando na água sem qualquer dano. Continuava se movendo sobre o mar em um som gelado de lâminas fendendo vidros. Cada vez mais rápido, cada vez mais próximo.

Foi a artilheira quem reagiu primeiro. Saltou sobre o castelo de proa preparando novo disparo. Aconteceu muito rápido. O olho do demônio incandesceu, disparando luz verde nauseabunda – algo entre raio e ácido – que atingiu violentamente a frente do navio.

O impacto fez os marujos caírem no assolho, alguns foram lançados ao mar. Um fogo esverdeado devorava cada pedaço do navio, enquanto lascas de madeira buscavam abrigo na carne de quem estava próximo. O próprio capitão fora alvejado, jogado ao solo como quem foi debelado. Da elfa, sobrou apenas o braço descarnado que jazia alguns passos adiante de Jimmy.

Foi quando avistou seu tio de pé sobre o batente. Parecia um carvalho em uma tempestade ou uma das rochas de Guaratiba que permanecem firmes diante da maré de arvores caóticas que se movem em Vera Cruz. E foi lá, em meio ao caos, que seu tio encontrou harmonia para simular o universo. Suas mãos gesticulavam símbolos tântricos enquanto as palavras “Furà tí ná Àrá lò si sá jó” escapavam da sua boca. O ar agitado por seus gestos assumiu forma incandescente e logo uma esfera rubra trovejava em suas mãos.

A magia explodiu fogo e relâmpagos sobre um monstro que agora agonizava sobre às águas. Logo estava dissolvido em uma poça de piche que mergulhava às profundezas. O tio voltou seus olhos ao sobrinho. “Para o Escaler”, ordenou. O medo ainda reinava naquele homem outrora feito de coragem.

E ele tinha seus motivos.

Um tentáculo escuro feito o medo emergiu da água erguendo seu tio pela perna. Tamanha sua força e violência rompeu ossos, carne e tendões, fazendo o pobre homem tombar enquanto a vil criatura levava seu membro embora. O valente rastejava ainda atônito em busca de uma salvação impossível, a tempo de Jimmy vê-lo chorar quando a criatura voltava para levar o que sobrou de sua vitima e arremessa-la em sua bocarra onde toda sua valentia começou a ser destroçada.

Jimmy sentiu uma força puxando seu braço, pensou ter a mesma sorte de seu tio, mas o que encontrou foram os olhos pétreos de seu pai – recém desperto do desmaio – seu braço firme arrastava o menino para um escaler. – Hoje eu vou morrer, filho. – explicou enquanto lhe entregava sua pequena aliança de prata – mas quero que você veja o amanhã. Procure Willian Drake do Jabuti Caolho. Diga que o demônio ainda guarda seus segredos.

Tão rápido quando surgiu, o capitão desaparece entre fumaça, sangue, madeiras e gritos de desespero. Jimmy logrou continuar na luta, mas seu pai já havia cortado um dos cordames do escaler e o peso da gravidade fez o restante. O pequeno bote caiu em água, mas foi logo atingindo por um pedaço do navio que desabava feito um castelo de cartas. O tranco catapultou o menino para longe da carnificina; caindo junto a outros destroços enquanto lastimava a sorte de seus companheiros.

Foi quando o demônio o reencontrou.

A criatura despejou seu olho tempestuoso na direção do menino. O garoto passou a sonhar com os feitos de sua infância e lembrar do porvir que jamais teria. Chorou enquanto sua canhota segurava firme uma madeira moribunda que lhe servia de boia e a destra apontava uma faca trêmula contra um inimigo impossível. “Já não importa mais”, lastimou aquele pobre rapaz de pouco passado e nenhum futuro.

Agradecimento

Esta história é inspirada na arte de Rafael Lima de oito anos. Quanto tiver idade para ler este conto, saiba que a vida não é sobre vencer ou perder, mas sobre acreditar fielmente no que se faz e lutar até o fim pelo seu intento. Que você seja sempre o ator principal da sua existência e nunca o coadjuvante.

Paz, Crescimento e Força. Oss.

 

 

Aguardem até a próxima aparição do Luiz por aqui!

Esperamos que tenha se animado, pois Sangue e Rum vem por ai!