Um bate-papo sobre aventuras com pegada mitológica!

Quem joga rpg de fantasia medieval já está acostumado com monstros retirados das mitologias, mas será que a atmosfera mitológica se faz presente nos jogos também? Até onde o fantástico é fantástico mesmo? Até onde os jogadores são surpreendidos pelos elementos fantásticos do seu jogo?

Que tal dicas para resgatar o teor mitológico na sua mesa?

Minotauro tem a origem mais fantástica que seu algoz Teseu!

1) Mitologia é cheia de mistérios

Abordar o fantástico de forma natural parece ser a forma mais usada em jogos de RPG, mas pense comigo: Se Monstros, magias e divindades não estiverem envoltos em mistérios, o que os definirá como fantásticos dentro do cenário de jogo? Num mundo mitológico até um evento natural como uma tempestade deve desencadear nos jogadores devaneios fantasiosos.

Alguns elementos naturais no cenário se tornam fantásticos apenas se comparados ao mundo real. Um dragão seria como um tubarão: causaria medo, todos o evitariam, mas ainda assim seria apenas um “perigo natural” se não houver um mito por trás deles. Percebe como isso vai contra o tom mitológico?

Não existe problema algum com a fantasia natural, mas Quando o fantástico se torna natural o mito pode perder a força.

Thor bebeu meio oceano no chifre de Utgarda-Loki e assim surgiram as marés

2) Mitologia viaja na maionese

Não sei se você sabe, mas a maioria das mitologias que temos no nosso mundo são meio sem pé nem cabeça. Vacas gigantes que alimentam o mundo, jardins sagrados de vida eterna, carruagens voadoras que arrastam o sol, etc.

Uma bela característica das mitologias é a falta de compromisso com a realidade ao explicar a realidade.

Adicione elementos surreais em seu mundo e ninguém vai duvidar de mais nada. Elfos são mesmo flores animadas pelas lágrimas de uma deusa? Beholders só morrem se expostos a beleza? As marcas da lua são mesmo de batalhas antigas? Verdade ou não, tanto faz, pois esta sabedoria popular já é o suficiente para dar um clima mitológico no jogo e quem sabe surpreender a galera.

Sem mistério, boataria ou “causos” é difícil evocar o mitológico.

O calcanhar de Aquiles: metáfora ou ponto fraco?

3) Mitologia transpira drama e tragédia

Uma coisa que não pode faltar em histórias mitológicas é o elemento do drama, que quase sempre causa uma tragédia. Ciúmes, traições, amores não correspondidos e toda sorte de pecados ou sentimentos intensos são extremamente perigosos. Os Deuses adoram zoar o plantão por causa disso!

Se existe alguma ameaça no ar, seja um monstro, praga desconhecida, assombrações ou assassinatos misteriosos, pode ter certeza de que existe uma grande chance de haver algum drama sentimental por trás.

Use isso para causar incerteza nos jogadores. Eles até podem trair o rei, mas será que isso não lhes atrairá algum mal? Claro que pode! Ainda mais em um mundo onde adultérios geram filhos monstruosos, infanticídios atraem mortos-vivos e quebras de promessas causam uma eternidade de punições no tártaro!

Em um mundo mitológico eventos pequenos podem explodir guerras, gerar monstros e iniciar o fim dos tempos! Ragnarok!

Huitzilopochtli, filho de Coatlicue e 1 beija-flor. Nasceu adulto, armado e matou seus 400 irmãos.

4) Mitologia tem deuses escrotos… muito!

Os deuses são figuras muito comuns e sociais nos mitos. Eles circulam entre os mortais, se divertem com eles e apaixonam por eles. Os Deuses são quase como humanos com poderes divinos, não necessariamente cheios de santidade e obstinação, mas geralmente egoismo, vaidade e orgulho.

Diferente de alguns cenários de RPG, não é comum que existam guerras entre deuses e seus devotos nas mitologias mais conhecidas. Geralmente os deuses fazem parte de um panteão que se retroalimenta, onde cada deus tem um papel e personifica algo. É mais fácil que uma briga se inicie por algo infantil do que uma guerra em busca do poder de outro deus.

O panteão é como uma grande família, todo mundo briga, mas no final de ano come junto. Os Inimigos dos deuses seriam de fora do panteão, sejam titãs do tártaro, Gigantes de Jotunheim por exemplo. É por isso que clérigos deveriam adorar o panteão inteiro, manifestando devoção ao seu patrono preferido, mas rezando a todo o panteão buscando bençãos específicas.

Traga os deuses para perto e deixe que os jogadores os enganem, amem, odeiem e festejem com eles.

Gilgamesh e Enkidu, talvez sejam os heróis mitológicos mais antigos da humanidade!

Caso de uso: Minotauro

Se minotauro é apenas uma espécie humanoide normal do mundo, nada de errado com nisso…. Maaaassss….e se o minotauro for o fruto do cruzamento bizarro entre um touro branco de chifres dourados e uma nobre humana? (spoiler?) Vamos analisar os 4 pontos do post na origem desse monstro clássico.

  1. Mitologia é cheia de misterios: O rei Minos tem sua autoridade contestada por seus irmãos e o que ele faz? Pede a Poseidon um sinal divino de sua autoridade, que foi prontamente aceito pelos que se rebelavam politicamente. A treta que poderia virar uma guerra ou rebelião foi esquecida assim, do nada, por conta de sinais divinos.
  2. Mitologia viaja na Maionese: Mas que sinal divino poderia deixar clara a autoridade do rei Minos? Um touro branco de chifres dourados para ser sacrificado em nome de Poseidon, é claro? Sim! O deus dos mares enviou um fodendo touro branco de chifres dourados que por algum motivo foi o suficiente para suprimir uma rebelião ou golpe de estado. Este touro seria o pai do Minotauro!
  3. Mitologia transpira drama e tragédia: Ia tudo bem, até que o rei Minos resolve não cumprir sua parte do acordo por cobiçar o touro branco! O animal resolve matar outro touro achando que Poseidon não iria notar. Sua grande cobiça o levou a uma grande tragédia: foi traído por sua esposa Pasífae com o touro! Parece que o casal ficou interessado no touro por motivos diferentes.
  4. Mitologia tem deuses escrotos: Alguns dizem que o touro era o próprio Poseidon e outros que Afrodite fez Pasífae se apaixonar pelo touro, mas o fato é que ela pediu ao  inventor Dédalo (pai de Ícaro que morreria voando com asas de cera) que construísse uma vaca de madeira para atrair o touro. Resumindo, ela se enfiou na vaca e o touro a penetrou quando penetrou a vaca de madeira e 9 meses depois nasceu o minotauro, como punição a Minos (embora eu ache que quem foi punido mesmo foi Pasífae!)
Pasífae dentro do Touro de Dédalo…. nem consigo imaginar a cena

Os jogadores poderiam se deparar com a cidade onde condenam pessoas a vagarem pelo labirinto do minotauro sem chegarem a saber sua história, mas veja que doido seria sabe-la. Que diálogos surgiriam com Pasífae ou Minos? Poseidon deixaria matarem o monstro que levou a existência como punição ao rei Minos? Afrodite faria alguem se apaixonar pelo minotauro? Haveria relação de mãe e filho?

Um simples minotauro poderia desencadear todo um arco de tramoias, espionagem, revelações e ira divina

E você caro(a) leitor(a)? Tem algum relato mitológico de suas mesas ou algum ponto a acrescentar sobre esta postagem? Manda ver nos comentários!

Abraço do PEP