O Imperador dos Sonhos

Clark Ashton Smith, o mais desconhecido dos três grandes autores da era Pulp dos anos 1920-1930 a serem publicados na revista Weird Tales. Seus contemporâneos e parceiros nessa tríade certamente dispensam apresentação: Robert E. Howard (Conan) e H. P. Lovecraft (Cthulhu). Mas apesar de menos conhecido, suas obras não foram menos influentes na formação do RPG enquanto hobby do que as de seus pares mais famosos.

A influência de Smith e seu exotismo macabro permeia a história do D&D, e do hobby, tanto quanto Howard ou Lovecraft, de maneira direta ou indireta, porém de forma mais sutil. Para ficarmos em dois exemplos bastante conhecidos, Clark Ashton Smith é tido como um dos grandes influenciadores dos escritos de Jack Vance (The Dying Earth, inspirador do sistema vanciano de magia usado até hoje em D&D) e um dos grandes módulos clássicos de D&D de 1981, X-2 Castle Amber (Château d’ Amberville) é reconhecido pelo autor Tom Moldvay como inspirado diretamente nas obras de Clark Ashton Smith.

Capa do clássico módulo X-2 Castle Amber (1981) por Tom Moldvay

Os Grandes Ciclos

A obra do autor é vasta e divididas em vários ciclos, sendo os principais Zothique (o ciclo mais famoso e influente do autor, pertence ao subgênero Dying Earth), Averoigne (ciclo que se destaca por ser situado em uma versão fantástica do sul da França durante o período medieval histórico, ao contrário dos continentes imaginários) e Hiperbórea (a Hiperbórea de Smith é um continente lendário no Ártico durante uma era pré-glacial, fortemente ligada aos Mitos de Cthulhu. Smith criou a divindade Tsathoggua para este ciclo). A história “O Conto de Satampra Zeiros” se passa no ciclo da Hiperbórea.

Aqui no Brasil, o material publicado do autor é extremamente raro. Por isso decidimos aproveitar para trazer a tradução de “The Tale of Satampra Zeiros”, publicado originalmente na revista Weird Tales (edição de novembro de 1931), um dos grandes clássicos que influenciou diretamente Gygax e Arneson durante a fundação do que viria a ser conhecido como RPG, na década de 1970. Esse é um dos contos que mostra a ideia original para personagens que longe de serem heróis, eram saqueadores de tumbas e cidades perdidas, em busca de ouro e glória, muitas vezes encontrando perigos insuperáveis e a morte, num mundo de criaturas estranhas e que não liga para protagonistas…

Se vocês curtiram essa tradução, deixem nos comentários quais outros contos de Clark Ashton Smith (ou de outras obras do Appendix N) vocês gostariam de ver por aqui!

E vamos ao que interessa: O Conto de Satampra Zeiros

Eu, Satampra Zeiros de Uzuldaroum, escreverei com a minha mão esquerda, visto que já não possuo a outra, o conto de tudo o que se abateu sobre Tirouv Ompallios e sobre mim no santuário do deus Tsathoggua, que jaz negligenciado pelo culto do homem nos subúrbios tomados pela selva de Commoriom, aquela capital há muito deserta dos governantes hiperbóreos. Escrevê-lo-ei com o suco violeta da palmeira-suvana, que se torna uma rubrica vermelho-sangue com a passagem dos anos, sobre um pergaminho resistente feito da pele de mastodonte, como um aviso a todos os bons ladrões e aventureiros que possam ouvir alguma lenda mentirosa sobre os tesouros perdidos de Commoriom e serem por isso tentados.

Ora, Tirouv Ompallios era meu amigo de toda a vida e meu companheiro de confiança em todos os empreendimentos que requerem dedos hábeis e um hábito mental tanto ágil quanto destro. Posso dizer, sem lisonjear a mim mesmo ou a Tirouv Ompallios, que levamos a um sucesso incomparável mais de uma empreitada da qual colegas de ofício de renome muito mais vasto do que o nosso poderiam ter recuado com desalento. Para ser mais explícito, refiro-me ao roubo das joias da Rainha Cunambria, que eram mantidas numa sala onde duas dezenas de répteis venenosos vagavam à vontade, e à quebra da caixa de adamantina de Acromi, na qual estavam todos os medalhões de uma antiga dinastia de reis hiperbóreos. É verdade que estes medalhões foram difíceis e perigosos de vender, e que os vendemos com terrível sacrifício ao capitão de uma embarcação bárbara da remota Lemúria: mas, todavia, a quebra daquela caixa foi um feito glorioso, pois teve de ser realizada em absoluto silêncio, devido à proximidade de uma dúzia de guardas, todos armados com tridentes. Fizemos uso de um ácido raro e mordaz… mas não devo demorar-me demasiado e tagarelar pelo caminho, por maior que seja a tentação de divagar entre memórias heroicas e o alto glamour de feitos valentes ou astutos.

Na nossa ocupação, como em todas as outras, as vicissitudes da fortuna devem ser muitas vezes levadas em conta, e a Deusa Sorte nem sempre é pródiga nos seus favores. Assim foi que Tirouv Ompallios e eu, na época sobre a qual escrevo, nos encontramos numa condição de depleção pecuniária, a qual, embora temporária, era, não obstante, extrema, e bastante inconveniente e irritante, vindo como veio no encalço de dias mais prósperos, de meias-noites mais lucrativas. As pessoas tinham-se tornado malditamente cautelosas com as suas joias e outros valores, janelas e portas eram trancadas duplamente, fechaduras novas e complexas estavam em uso, guardas tinham-se tornado mais vigilantes ou menos sonolentos — em suma, todas as dificuldades naturais da nossa profissão tinham-se multiplicado. A certa altura, fomos reduzidos ao roubo de mercadorias mais volumosas e menos preciosas do que aquelas com as quais costumávamos lidar, e mesmo isto tinha os seus perigos. Até agora, humilha-me lembrar a noite em que fomos quase apanhados com um saco de inhames vermelhos. E menciono tudo isto para que eu não pareça de modo algum vanglorioso.

Uma noite, num beco do bairro mais humilde de Uzuldaroum, paramos para contar os nossos recursos disponíveis e descobrimos que tínhamos entre nós exatamente três pazoors — o suficiente para comprar uma garrafa grande de vinho de romã ou dois pães. Debatemos o problema da despesa.

“O pão”, defendeu Tirouv Ompallios, “nutrirá os nossos corpos, emprestará uma força nova e mais expedita aos nossos membros exaustos e aos nossos dedos calejados.”

“O vinho de romã”, disse eu, “enobrecerá os nossos pensamentos, inspirará e iluminará as nossas mentes e, porventura, revelar-nos-á um modo de escapar das nossas dificuldades atuais.”

Tirouv Ompallios cedeu sem argumentos indevidos ao meu raciocínio superior, e procuramos as portas de uma taverna adjacente. O vinho não era dos melhores, no que diz respeito ao sabor, mas a quantidade e a força eram tudo o que se podia desejar. Sentamo-nos na taverna apinhada e bebericamos à vontade, até que todo o fogo do líquido vermelho vivo se transferisse para os nossos cérebros. A escuridão e a incerteza dos nossos caminhos futuros iluminaram-se como que pela luz de archotes rosados, e o aspeto duro do mundo foi maravilhosamente suavizado. De repente, veio-me uma inspiração.

“Tirouv Ompallios”, disse eu, “há alguma razão para que tu e eu, que somos homens bravos e de modo algum sujeitos aos medos e superstições da multidão, não nos aproveitemos dos tesouros reais de Commoriom? Um dia de viagem desta cidade cansativa, uma estadia agradável no campo, uma tarde ou manhã de pesquisa arqueológica — e quem sabe o que encontraríamos?”

“Falas com sabedoria e valentia, meu caro amigo”, respondeu Tirouv Ompallios. “De fato, não há razão para que não reabasteçamos as nossas finanças deflacionadas às custas de alguns reis ou deuses mortos.”

Ora, Commoriom, como todo o mundo sabe, foi abandonada há muitas centenas de anos devido à profecia da Sibila Branca de Polarion, que predisse um destino indescritível e abominável para todos os seres mortais que ousassem permanecer nos seus arredores. Alguns dizem que este destino foi uma pestilência que teria vindo dos ermos do norte pelos caminhos das tribos da selva. Outros, que foi uma forma de loucura. De qualquer forma, ninguém, nem rei, nem sacerdote, nem mercador, nem trabalhador, nem ladrão, permaneceu em Commoriom para aguardar a sua chegada, mas todos partiram numa única migração para fundar, à distância de um dia de viagem, a nova capital, Uzuldaroum. E contam-se histórias estranhas, de horrores e terrores que não podem ser enfrentados ou superados pelo homem, que assombram para todo o sempre os santuários, mausoléus e palácios de Commoriom. E ela ainda permanece de pé, um lustre de mármore, uma magnificência de granito, repleta de agulhas, cúpulas e obeliscos que as poderosas árvores da selva ainda não ultrapassaram em altura, num vale fértil do interior da Hiperbórea. E os homens dizem que, nas suas abóbadas intactas, jaz inteiro e não espoliado, como outrora, o rico tesouro dos antigos monarcas, que os túmulos elevados retêm as gemas e o electro que foram enterrados com as suas múmias, que os templos ainda têm os seus vasos de altar e mobiliário dourados, e os ídolos, as suas pedras preciosas nas orelhas, bocas, narinas e umbigos.

Penso que teríamos partido naquela mesma noite, se tivéssemos tido o encorajamento e a inspiração de uma segunda garrafa de vinho de romã. Como tal, decidimos partir ao amanhecer: o fato de não termos fundos para a nossa jornada era de pouca importância, pois, a menos que a nossa antiga destreza nos tivesse falhado completamente, poderíamos cobrar um módico tributo involuntário do povo ingênuo do campo. Entretanto, dirigimo-nos aos nossos alojamentos, onde o senhorio nos recebeu com boas-vindas relutantes e uma exigência muito indelicada pelo seu dinheiro. Mas a promessa dourada do amanhã tinha-nos armado contra tais aborrecimentos triviais, e dispensamos o sujeito com um desdém que pareceu espantá-lo, se não mesmo subjugá-lo.

Dormimos até tarde, e o sol já tinha ascendido bastante na aclividade azul dos céus quando deixamos os portões de Uzuldaroum e tomamos a estrada do norte que leva a Commoriom. Tomamos um bom desjejum com alguns melões cor de âmbar e uma ave roubada que cozinhamos na floresta, e depois retomamos a nossa caminhada. Apesar de uma fadiga que aumentou em nós perto do fim do dia, a nossa viagem foi agradável, e encontramos muito para nos divertir nas paisagens variadas pelas quais passamos e nas suas gentes. Algumas dessas pessoas, tenho certeza, devem ainda lembrar-se de nós com pesar, pois não nos negamos nada que fosse possível obter e que tentasse a nossa fantasia ou os nossos apetites.

Era um país agradável, cheio de quintas e pomares, águas correntes e bosques verdes e floridos. Por fim, em algum momento no decorrer da tarde, chegamos à antiga estrada, há muito em desuso e quase totalmente coberta de vegetação, que corre da estrada principal através da selva antiga até Commoriom.

Ninguém nos viu entrar nesta estrada e, dali em diante, não encontramos ninguém. Com um único passo, passamos para longe de todo o conhecimento humano, e parecia que o silêncio da floresta ao nosso redor jazia inalterado por passos mortais desde a partida do rei lendário e do seu povo, tantos séculos antes. As árvores eram mais vastas do que quaisquer que já tivéramos visto, estavam entrelaçadas pelos volumes labirínticos sem fim, as eternas convoluções em teia de trepadeiras quase tão velhas quanto elas próprias. As flores eram doentiamente grandes, as suas pétalas ostentavam uma palidez letal ou um escarlate sanguinário, e os seus perfumes eram avassaladoramente doces ou fétidos. As frutas ao longo do nosso caminho eram de grande tamanho, com cores púrpura, laranja e castanho-avermelhado, mas de alguma forma não ousamos comê-las.

Os bosques tornavam-se mais espessos e desenfreados à medida que avançávamos, e a estrada, embora pavimentada com lajes de granito, estava cada vez mais coberta de vegetação, pois as árvores tinham enraizado nos interstícios, forçando muitas vezes os largos blocos a separarem-se. Embora o sol ainda não se tivesse aproximado do horizonte, as sombras projetadas sobre nós pelos troncos e ramos gigantescos tornavam-se cada vez mais densas, e movíamo-nos num crepúsculo verde-escuro carregado de odores opressivos de crescimento luxuriante e corrupção vegetal. Não havia pássaros nem animais, como se esperaria encontrar em qualquer floresta saudável, mas, em raros intervalos, uma víbora furtiva com anéis pálidos e pesados deslizava para longe dos nossos pés entre as folhas viçosas da beira da estrada, ou alguma mariposa enorme com manchas barrocas e de cores malignas voava diante de nós e desaparecia na penumbra da selva. Já no exterior, na meia-luz, enormes morcegos purpúreos com olhos como rubis minúsculos erguiam-se à nossa aproximação das frutas de aspeto venenoso nas quais se banqueteavam, e observavam-nos com atenção maligna enquanto pairavam silenciosamente no ar acima. E sentíamos, de alguma forma, que estávamos a ser observados por outras presenças invisíveis, e uma espécie de pavor caiu sobre nós, e um medo vago da selva monstruosa, e já não falávamos alto, nem frequentemente, mas apenas em raros sussurros.

Entre outras coisas, tínhamos conseguido obter ao longo do caminho uma grande garrafa de couro cheia de licor de palma. Alguns goles do líquido ardente já tinham servido para aliviar mais de uma vez o tédio da nossa jornada, e agora ser-nos-ia de grande valia. Cada um de nós bebeu um gole generoso e, de imediato, a selva tornou-se menos pavorosa, e perguntamo-nos por que tínhamos permitido que o silêncio e a escuridão, os morcegos vigilantes e a imensidão opressiva pesassem sobre os nossos espíritos, mesmo que por um breve momento, e penso que, após um segundo gole, começamos a cantar.

Quando o crepúsculo chegou e uma lua crescente brilhou alto nos céus depois de a estrela diurna oculta se ter posto, estávamos tão imbuídos do fervor da aventura que decidimos avançar e chegar a Commoriom naquela mesma noite. Ceamos com comida que tínhamos cobrado do povo do campo, e a garrafa de couro passou entre nós várias vezes. Então, consideravelmente fortificados e repletos de ousadia e do valor de um empreendimento elevado, retomamos a nossa jornada.

De fato, não tínhamos muito mais para andar. Mesmo enquanto debatíamos entre nós, com um ardor que nos fazia esquecer a nossa longa caminhada, que saque custoso escolheríamos primeiro dentre todos os tesouros míticos de Commoriom, vimos ao luar o brilho de cúpulas de mármore acima das copas das árvores e, depois, entre os ramos e troncos, os pilares pálidos de pórticos sombrios. Mais alguns passos e pisamos em ruas pavimentadas que corriam transversalmente da estrada principal que seguíamos, para dentro dos bosques altos e luxuriantes de ambos os lados, onde as frondes de poderosas samambaias ultrapassavam os telhados de casas antigas.

Pausamos, e novamente o silêncio de uma desolação antiga reclamou os nossos lábios. Pois as casas eram brancas e imóveis como sepulcros, e as sombras profundas que jaziam ao redor e sobre elas eram frias, sinistras e misteriosas como a própria sombra da morte. Parecia que o sol não podia ter brilhado durante eras neste lugar — que nada mais quente do que os raios espectrais da lua cadavérica tinha tocado o mármore e o granito desde aquela migração universal motivada pela profecia da Sibila Branca de Polarion.

“Quem me dera que fosse dia”, murmurou Tirouv Ompallios. Os seus tons baixos eram estranhamente sibilantes, eram antinaturalmente audíveis na quietude morta. “Tirouv Ompallios”, respondi, “espero que não estejas ficando supersticioso. Ser-me-ia penoso pensar que estás a sucumbir às fantasias infantis da multidão. De qualquer modo, vamos beber mais um gole.”

Aliviamos a garrafa de couro apreciavelmente com a procura que agora fizemos do seu conteúdo, e fomos maravilhosamente animados por isso — tanto, de fato, que começamos imediatamente a explorar uma avenida à esquerda que, embora tivesse sido traçada com retidão matemática, desaparecia a não grande distância entre as árvores frondosas. Aqui, um pouco afastado dos outros edifícios, numa espécie de praça que a selva ainda não tinha usurpado totalmente, encontramos um pequeno templo de arquitetura antiga que dava a impressão de ser muito mais velho até do que os edifícios adjacentes. Também diferia destes no seu material, pois era construído de uma pedra basáltica escura pesadamente incrustada com líquens que pareciam de uma antiguidade coeva. Era quadrado na forma e não tinha cúpulas nem agulhas, nenhuma fachada de pilares, e apenas algumas janelas estreitas bem acima do solo. Tais templos são raros na Hiperbórea hoje em dia, mas reconhecemo-lo como um santuário de Tsathoggua, um dos deuses antigos, que já não recebe qualquer adoração dos homens, mas diante de cujos altares cinzentos, dizem as pessoas, as bestas furtivas e ferozes da selva, o macaco, a preguiça gigante e o tigre-de-dentes-longos, foram por vezes vistas a fazer reverência e ouvidas a uivar ou ganir as suas orações inarticuladas.

O templo, como os outros edifícios, estava num estado de preservação quase perfeito: os únicos sinais de decadência estavam na verga esculpida da porta, que se tinha esboroado e lascado em vários lugares. A própria porta, feita de um bronze escuro todo esverdeado pelo tempo, estava ligeiramente entreaberta. Sabendo que deveria haver um ídolo adornado com joias lá dentro, para não mencionar as várias peças de altar de metais valiosos, sentimos o impulso da tentação.

Imaginando que força poderia ser necessária para forçar a abertura da porta coberta de azinhavre, bebemos profundamente e depois aplicamo-nos à tarefa. Claro, as dobradiças estavam enferrujadas, e só à custa de empurrões poderosos e musculares a porta começou finalmente a mover-se. À medida que renovamos os nossos esforços, ela girou lentamente para dentro com um chiar e um ranger hediondos que subiram a um guincho quase vocal, no qual nos pareceu ouvir os tons de alguma entidade não humana. O interior escuro do templo bocejou diante de nós, e dele surgiu um odor de mofo há muito aprisionado combinado com uma fetidez estranha e desconhecida. A isto, no entanto, demos pouca atenção na excitação natural do momento.

Com a minha habitual previdência, tinha-me munido de um pedaço de madeira resinosa no início do dia, pensando que poderia servir como tocha em caso de quaisquer explorações noturnas em Commoriom. Acendi esta tocha e entramos no santuário.

O lugar era pavimentado com imensas lajes pentagonais do mesmo material de que as suas paredes eram construídas. Estava bastante nu, exceto pela imagem do deus entronizado na extremidade oposta, o altar de dois níveis de metal com figuras obscenas diante da imagem, e uma bacia grande e de aspeto curioso de bronze apoiada em três pernas, que ocupava o meio do chão. Dando a esta bacia pouco mais que um olhar, corremos para a frente e eu empurrei a minha tocha na cara do ídolo.

Eu nunca tinha visto uma imagem de Tsathoggua antes, mas reconheci-o sem dificuldade pelas descrições que tinha ouvido. Ele era muito atarracado e barrigudo, a sua cabeça parecia-se mais com a de um sapo monstruoso do que com a de uma divindade, e todo o seu corpo estava coberto com uma imitação de pelo curto, dando de alguma forma uma vaga sugestão tanto do morcego quanto da preguiça. As suas pálpebras sonolentas estavam semicerradas sobre os seus olhos globulares, e a ponta de uma língua estranha saía da sua boca gorda. Na verdade, ele não era um tipo de deus atraente ou apresentável, e não me admirei com a cessação do seu culto, que só poderia ter apelado a homens muito brutais e aborígenes em qualquer época.

Tirouv Ompallios e eu começamos a praguejar simultaneamente pelos nomes de divindades mais urbanas e civilizadas, quando vimos que nem a mais comum das gemas semipreciosas era visível em qualquer lugar, nem sobre nem dentro de qualquer feição ou membro desta imagem execrável. Com uma sovinice sem paralelo, até os olhos tinham sido esculpidos da mesma pedra baça que o resto da coisa abominável, e boca, nariz, orelhas e todos os outros orifícios estavam sem adornos. Só podíamos admirar-nos com a avareza ou pobreza dos seres que tinham forjado esta bestialidade única.

Agora que as nossas mentes já não estavam cativadas pela esperança de riquezas imediatas, tornamo-nos mais agudamente conscientes do nosso entorno em geral, e, em particular, notamos o fedor desconhecido de que falei anteriormente, que agora tinha aumentado desconfortavelmente em força. Descobrimos que vinha da bacia de bronze, a qual procedemos a examinar, embora sem qualquer ideia de que o exame seria lucrativo ou sequer agradável.

A bacia, como disse, era muito grande, de fato, tinha nada menos que seis pés de diâmetro por três de profundidade, e a sua borda ficava à altura do ombro de um homem alto a partir do chão. As três pernas que a sustentavam eram curvas e maciças e terminavam em patas felinas exibindo as suas garras. Quando nos aproximamos e espreitamos por cima da borda, vimos que a taça estava cheia de uma espécie de substância viscosa e semilíquida, bastante opaca e de uma cor fuliginosa. Era disto que vinha o odor — um odor que, embora insuperavelmente fétido, não era, todavia, um odor de putrefação, mas assemelhava-se antes ao cheiro de alguma criatura vil e imunda dos pântanos. O odor era quase insuportável, e estávamos prestes a virar as costas quando percebemos uma leve ebulição da superfície, como se o líquido fuliginoso estivesse a ser agitado a partir de dentro por algum animal submerso ou outra entidade. Esta ebulição aumentou rapidamente, o centro inchou como se pela ação de algum fermento poderoso, e assistimos em horror total, enquanto uma cabeça amorfa e grosseira com olhos baços e salientes se erguia gradualmente num pescoço cada vez mais longo, e nos encarava com malignidade primordial. Então dois braços — se é que se lhes podia chamar braços — ergueram-se igualmente centímetro a centímetro, e vimos que a coisa não era, como tínhamos pensado, uma criatura imersa no líquido, mas que o próprio líquido tinha emitido este pescoço e cabeça hediondos, e estava agora a formar estes braços malditos, que tateavam na nossa direção com apêndices tentaculares em vez de garras ou mãos!

Um medo que nunca tínhamos experimentado nem em sonhos, do qual não tínhamos encontrado indício nas nossas excursões noturnas mais perigosas, privou-nos da faculdade da fala, mas não do movimento. Recuamos alguns passos da taça e, coincidentemente com os nossos passos, o pescoço e os braços horríveis continuaram a alongar-se. Então, toda a massa do fluido escuro começou a subir e, muito mais rapidamente do que o suco de suvana corre da minha pena, derramou-se sobre a borda da bacia como uma torrente de mercúrio negro, tomando, ao atingir o chão, uma forma ofídica ondulante que desenvolveu imediatamente mais de uma dúzia de pernas curtas.

Que horror inimaginável de vida protoplástica, que prole repugnante do lodo primordial tinha surgido para nos confrontar, não paramos para considerar ou conjecturar. A monstruosidade era demasiado terrível para permitir até mesmo uma breve contemplação, além disso, as suas intenções eram claramente hostis, e dava provas de inclinações antropofágicas, pois deslizava na nossa direção com uma velocidade e celeridade de movimento inacreditáveis, abrindo, à medida que vinha, uma boca desdentada de capacidade espantosa. Enquanto se escancarava sobre nós, revelando uma língua que se desenrolava como uma longa serpente, as suas mandíbulas alargavam-se com a mesma elasticidade extrema que acompanhava todos os seus outros movimentos. Vimos que a nossa partida do templo de Tsathoggua se tinha tornado imperativa e, virando as costas a todas as abominações daquele santuário profano, cruzamos a soleira com um único salto e corremos precipitadamente ao luar pelos subúrbios de Commoriom. Dobramos todas as esquinas convenientes, voltamos sobre os nossos passos atrás dos palácios de nobres esquecidos pelo tempo e dos armazéns de mercadores não registados, escolhemos preferencialmente os lugares onde as árvores invasoras da selva eram mais altas e espessas, e, por fim, numa estrada secundária onde as casas periféricas já não eram visíveis, pausamos e ousamos olhar para trás.

Os nossos pulmões estavam intoleravelmente tensos, prestes a estourar com o esforço heroico, e as várias fadigas do dia tinham pesado sobre nós de forma demasiado penosa, mas quando vimos nos nossos calcanhares o monstro negro, seguindo-nos com uma facilidade serpentina e ondulante, como uma torrente que desce um longo declive, os nossos membros flácidos foram milagrosamente reanimados, e mergulhamos da luz traidora da estrada secundária para a selva sem caminhos, esperando evadir o nosso perseguidor no labirinto de troncos e vinhas e folhas gigantescas. Tropeçamos em raízes e árvores caídas, rasgamos as nossas vestes e laceramos a nossa pele nas silvas selvagens, colidimos na penumbra com troncos enormes e árvores jovens flexíveis que se dobravam diante de nós, ouvimos o sibilar de cobras arborícolas que cuspiam o seu veneno sobre nós dos ramos acima, e o grunhido ou uivo de animais invisíveis quando pisávamos neles na nossa fuga precipitada. Mas já não ousávamos parar ou olhar para trás.

Devemos ter continuado as nossas peregrinações desenfreadas por horas. A lua, que nos tinha dado pouca luz na melhor das hipóteses através da folhagem pesada, desceu cada vez mais entre as palmeiras de frondes enormes e as trepadeiras intrincadas. Mas os seus raios finais, quando se pôs, foram tudo o que nos salvou de um pântano repugnante com montes e tufos de erva que ocultavam o lodaçal, em cujos arredores perigosos e ao longo de cuja borda mefítica fomos obrigados a correr sem pausa ou hesitação ou tempo para escolher onde pisar, com o nosso perseguidor maldito a seguir cada passo.

Agora, quando a lua se tinha posto, a nossa fuga tornou-se mais selvagem e perigosa — um verdadeiro delírio de terror, exaustão, confusão e progressão difícil e desesperada entre obstáculos aos quais já não dávamos qualquer atenção ou compreensão distinta, através de uma noite que se agarrava a nós e nos entupia como uma carga maligna, como as malhas de uma teia monstruosa. Pareceria que a criatura atrás de nós, com as suas facilidades inacreditáveis de movimento e autoalongamento, poderia ter-nos alcançado a qualquer momento, mas aparentemente desejava prolongar o jogo. E assim, numa protração semi-eterna de horrores inconclusivos, a noite arrastou-se… Mas nunca ousamos parar ou olhar para trás.

Ao longe e pálido, um crepúsculo cintilante cresceu entre as árvores — um presságio da manhã oculta. Mais cansados do que os mortos, e ansiando por qualquer repouso, qualquer segurança, até mesmo a de algum túmulo indiscernível, corremos em direção à luz e tropeçamos para fora da selva numa rua pavimentada entre edifícios de mármore e granito. Vagamente, torpidamente, sob o esmagamento da nossa fadiga, percebemos que tínhamos andado em círculos e voltado aos subúrbios de Commoriom. Diante de nós, não mais longe do que o arremesso de um dardo, estava o templo escuro de Tsathoggua.

Novamente aventuramo-nos a olhar para trás e vimos o monstro elástico, cujas pernas se tinham agora alongado até se elevar acima de nós, e cuja bocarra era larga o suficiente para nos ter engolido a ambos numa só dentada. Seguia-nos com um deslizar sem esforço, com uma certeza de movimento e intenção demasiado horrível, demasiado cínica para ser suportada. Corremos para dentro do templo de Tsathoggua, cuja porta ainda estava aberta tal como a tínhamos deixado e, fechando a porta atrás de nós com um imediatismo medroso, conseguimos, na força sobre-humana do nosso desespero, correr um dos ferrolhos enferrujados.

Agora, enquanto a melancolia fria do amanhecer caía em feixes estreitos através das janelas no alto da parede, tentamos com uma resignação verdadeiramente heroica recompor-nos, e esperamos pelo que quer que o nosso destino trouxesse. E enquanto esperávamos, o deus Tsathoggua espreitava-nos com um atarracamento, uma vileza e uma bestialidade ainda mais imbecis do que tinha mostrado à luz da tocha.

Penso ter dito que a verga da porta se tinha esboroado e lascado em vários lugares. De fato, o processo inicial de ruína tinha feito três aberturas, através das quais a luz do dia agora filtrava, e que eram grandes o suficiente para ter permitido a passagem de pequenos animais ou serpentes de tamanho considerável. Por alguma razão, os nossos olhos foram atraídos para estas aberturas.

Não tínhamos olhado por muito tempo, quando a luz foi subitamente interceptada em todas as três aberturas, e então um material negro começou a derramar-se através delas e escorreu pela porta num fluxo triplo até às lajes, onde se reuniu e retomou a forma da coisa que nos tinha seguido.

“Adeus, Tirouv Ompallios”, gritei, com o pouco fôlego que consegui reunir. Então corri e escondi-me atrás da imagem de Tsathoggua, que era grande o suficiente para me ocultar da vista, mas, infelizmente, era demasiado pequena para servir a este propósito para mais de uma pessoa. Tirouv Ompallios teria me precedido com a mesma ideia louvável de autopreservação, mas fui mais rápido. E vendo que não havia espaço para ambos na retaguarda de Tsathoggua, ele retribuiu a minha despedida e subiu para a grande bacia de bronze, que sozinha poderia agora oferecer um momento de ocultação na nudez do templo.

Espreitando por trás daquele deus execrável, cujo único mérito era a largura do seu abdômen e dos seus quadris, observei as ações do monstro. Assim que Tirouv Ompallios se agachou na taça de três pernas, a enormidade inominável ergueu-se como um pilar fuliginoso e aproximou-se da bacia. A cabeça tinha agora mudado de forma e posição, até não ser mais do que uma vaga impressão de feições no meio de um corpo sem braços, pernas ou pescoço. A coisa avultou acima da borda por um instante, reunindo todo o seu volume numa massa iminente sobre uma espécie de cauda afilada e, então, como uma onda que quebra, caiu dentro da taça sobre Tirouv Ompallios. Todo o seu corpo pareceu abrir-se e formar uma boca imensa à medida que afundava de vista.

Mal conseguindo respirar no meu horror, esperei, mas nenhum som e nenhum movimento veio da bacia — nem sequer um gemido de Tirouv Ompallios. Finalmente, com lentidão, trepidação e cautela infinitas, aventurei-me a emergir de trás de Tsathoggua e, passando pela taça na ponta dos pés, consegui chegar à porta.

Agora, para ganhar a minha liberdade, seria necessário puxar o ferrolho e abrir a porta. E isto eu temia grandemente fazer por causa do ruído inevitável. Senti que seria altamente imprudente perturbar a entidade na taça enquanto digeria Tirouv Ompallios, mas parecia não haver outro caminho se eu quisesse algum dia deixar aquele santuário abominável. No momento em que puxei o ferrolho, um único tentáculo saltou com rapidez infernal da bacia e, alongando-se através de toda a sala, apanhou o meu pulso direito numa garra letal. Era diferente de tudo o que eu alguma vez tinha tocado, era indescritivelmente viscoso, limoso e frio, era repugnantemente macio como o lodo fétido de um pântano e mordazmente afiado como um metal cortante, com uma sucção e constrição agonizantes que me fizeram gritar alto enquanto a garra apertava a minha carne, cortando-me como um torno de lâminas de faca. Nas minhas lutas para me libertar, abri a porta e caí para a frente na soleira. Um momento de dor terrível, e então percebi que me tinha libertado do meu captor. Mas olhando para baixo, vi que a minha mão tinha desaparecido, deixando um toco estranhamente mirrado do qual pouco sangue saía. Então, olhando para trás para dentro do santuário, vi o tentáculo recuar e encurtar até passar de vista atrás da borda da bacia, levando a minha mão perdida para se juntar ao que quer que agora restasse de Tirouv Ompallios.


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