Como é escrever sobre o presente do Nilo, pelo autor do Khemet!

Hoje o Cérebro no Jarro traz para você uma entrevista exclusiva com Alex Silva, o autor de Khemet, um jogo de RPG Old School ambientado no Egito fantástico que será lançado pela Gentle Ogre. O jogo é repleto de referências históricas e conceitos de Afrofuturismo. O Alex Silva nos supreendeu e a mesa da Guilda dos Mestres no DOFF ficou maravilhada com o jogo.

Alex mestrando para nossa mesa no DOFF. Com Eduardo Soares (Devorador de Menta), Felipe Pep (nosso Zelador de Amarelo), Felipe Gomes (esse Cérebro no Jarro que vos fala) e Luiz Claudio Gonçalves, Sensei e autor do Thordezilhas.

Entrevista

Guilda dos Mestres:

Qual foi o ponto de partida pro Khemet?


Alex Silva: 

Então, não foi nada a ver com RPG saca? Foi um lance meu, de redescoberta. Peguei uma pilha de estudar autores africanos, aí peguei os historiadores afrocentrados e bingo! Redescobri o tal Egito, comecei a dar aula com minhas “novas” fontes, aí pensei… “Como não temos um jogo sobre o Egito real, Khemet?! Sobre o Egito africano?”. Aí comecei só a pensar: Os livros de filosofia africana (Kemética principalmente) começaram a esboçar umas mecânicas na cabeça

Guilda dos Mestres: 
Interessante! Então você organizou suas fontes antes de virar um RPG?
Isso! Fui organizando. Tem três autores que serviram de maior Base, o Senegalês Cheik Anta Diop, Molefi Asante e o “brasileiro” Nei Lopes. Esses três foram minha primeira base, depois outros foram descobertos e/ou inseridos
Guilda dos Mestres: 
E em que momento você pensou “pô, essa parada é boa demais pra ser só história”?
Quando eu estava estudando principalmente sobre filosofia e ciência, o que estamos chamando agora de Ciência-Espiritual, e como ela foi quebrada. Isso eu pensei que daria um ótimo ponto de partida pra um jogo
“Como não temos um jogo sobre o Egito real, Khemet?! Sobre o Egito africano?”
Guilda dos Mestres: 
E como a Gentle Ogre entrou nisso? O Aislão das Massas ficou sabendo do conceito e mandou o “Vamos publicar?!”?
Cara, foi louco e quase isso (risos). Tipo, eu soltei a ideia em algum grupo OSR, ele perguntou na própria postagem todo curioso sobre algumas mecânicas que ele tinha gostado, aí depois veio no inbox falando que era o Aislão da massa e me assediou (risos), falando que queria lançar e tal…
Guilda dos Mestres: 
Uma das maiores barreiras dos criadores de conteúdo é trazer a realidade suas ideias, como foi esse processo pra você?
Pra mim ainda está um pouco difícil (risos). Não sou Game Designer ou não era, sei lá (risos), mas eu era aquele cara chato que fica defendendo AD&D 2ed por aí. Esse jogo seria algum PDF gratuito que eu usaria com meu grupo.
Pra mim uma parte difícil é dar esse salto do que seria um PDF pra um grupo que joga junto desde 1997 pra um jogo lançado por editora e que vise ser compreendido até por iniciantes.Outra coisa complicada é que como eu nunca lancei nada comercialmente, eu tendo a ser muito direto, isso me dificulta um pouco. Outra coisa é que quanto mais eu pesquiso mais eu encontro coisa nova.
Pra tu ter ideia achei um calendário de Kemet, com todas as suas divisões de semanas e meses além de todas as datas festivas, é muita coisa que eu acho. Aí tenho que filtrar um pouco, pelo menos eu acho que tenho! (risos).
A imagem pode conter: 4 pessoas, incluindo Felipe Gomes, Aislan Adi Gonçalves de Borba e Thiago Couto, pessoas sorrindo, pessoas em pé

Alex Silva, Felipe Gomes (O Cérebro no Jarro), Aislão da Massa e Thiago Couto (autor das Crônicas dos Orcs Negros)

Guilda dos Mestres: 
E como você organizou teu processo de escrita? Havia uma meta de palavras por dia?
Nada, meu processo é maluco. Aliás, eu deveria me organizar! Eu às vezes fico uma semana sem tocar em nada e um dia escrevo muito. Como eu disse, tudo é muito novo, eu ainda não tô lidando direito com o processo. Normalmente quando eu não escrevo eu estou lendo, meu inglês não é lá grande grande coisa e a imensa maioria dos livros afrocentrados é em inglês. Então ler faz parte do meu processo de criação também, nem sempre dá pra ler e ir jogando no papel. Também têm umas páginas no facebook em inglês que me ajudam muito e são especializadas em Khemet. Aí mesmo quando não escrevo estou lendo e organizando as ideias
Guilda dos Mestres: 
Algum livro de RPG foi inspiração pra você? Do tipo “quero que meu filho tenha essa cara”
Talvez o Spears of the Dawn, por ser um jogo com um clima que eu tento chegar nele. Além da arte e tal….
Guilda dos Mestres: 
Mas você queria citar um livro que não é de RPG, qual e pq?
A Origem Africana da Civilização do Diop, esse é o livro! Junto com o Dicionário de Antiguidade Africana do Nei Lopes, esses livros ajudam até pra pensar aventuras e entender as informações contidas no livro, embora elas aparecem de forma leve e que dão pra entender na moral sem precisar ser historiador (risos).
Khemet é um OSR mas não um Espada e Feitiçaria, Khemet é sobre Luta, Exploração e Espiritualidade.
Guilda dos Mestres: 
O Khemet foi anunciado recentemente pela Gentle Ogre. Como anda o gerenciamento de emoções para ver seu primeiro trabalho de RPG transformado em realidade?
Porra, eu meio que não acredito muito ainda, parece que não caiu a ficha (risos). Tô ansioso e tenho trabalho, é uma agonia misturada com vontade. Eu ainda não imagino o “bicho” na minha mão, de verdade. Não imagino no meu grupo, quando paro pra imaginar outros grupos jogando fico mais nervoso ainda. Mas eu quero realmente que seja importante, que pessoas negras joguem, entendam de sua história e como as coisas eram realmente. Que todos e todas saibam como era o Khemet e como a noção visão geral sobre Egito é branca e racista, quero mesmo que seja importante pra alguém o jogo. Pode parecer pretensioso, mas espero mesmo que pelo alguém use o jogo e descubra coisas com ele.
Guilda dos Mestres: 
O Khemet tem uma identidade forte. E a identidade do Alex também! Que impressões pessoais tentou colocar no seu trabalho?
Alex Silva:
Primeiro que é jogo sobre raça não sobre racismo. Essa é a ideia base. Eu me inspiro sempre na frase do Marcus Garvey pra escrever “De pé ó raça poderosa”, essa é a marca do jogo, conta a história de um continente e o início do seu declínio, mas mesmo assim é algo esplêndido e às vezes difícil de acreditar rs. A minha marca no jogo é eu escrever o jogo vislumbrado, eu estou pesquisando e sempre chamo minha esposa (que não joga RPG) e digo “Olha o que eu achei sobre Khemet! Nosso povo é lindo”. Acho que essa é a marca do jogo, é entender que Khemet teve seus problemas mas é civilização mais fantástica que esse mundo já presenciou, muito mais que a egípcia criada na cabeça dos europeus.
Guilda dos Mestres: 
Que mensagem você acha que a comunidade de RPG brasileira pode absorver do Khemet?
Que povos contavam histórias de forma oral muito antes dos europeus, que existem lendas, mitos e alta tecnologia em outros povos em um pais de maioria negra. Deveríamos ter muito mais ficção sobre povos africanos e indígenas. Khemet também quer tirar as pessoas do conforto da fantasia clássica (até mesmo do OSR), novas formas de pensar sobre “exploração” do mundo, uma ética não dualista e não maniqueísta de mundo também esterá presente. Khemet é um OSR mas não um Espada e Feitiçaria, Khemet é sobre Luta, Exploração e Espiritualidade. Os personagens são africanos bem treinados e com potencial para serem ancestrais lembrados em canções ou em livros, essa é ideia
Guilda dos Mestres: 
E quais as próximas produções após o lançamento do Khemet?
Eu ainda não sei (risos), depende da editora e do jogo, mas provavelmente algo para o próprio Khemet. Também conversamos sobre uma futura adaptação pra Savage Worlds que atualmente é o sistema que eu mais jogo. Tenho uma ideia aqui de avançar o Khemet pro ano 3000 e pensar em algo mais afrofuturista, mas são ideias e eu tenho que parar de preguiça pra andar essas coisas (risos).
Guilda dos Mestres: 
Alguma mensagem para a galera que deseja se lançar no mercado de RPG nacional e tem dúvidas de como funciona o processo?


Alex Silva:

Bem, eu acho que fui sortudo (risos), mas não façam como eu, não contem com a sorte. Acho que quem quer entrar na coisa primeiro tem que entender que jogo quer produzir, conversar em páginas sérias do facebook sobre suas ideias e escrever, escrever bastante. Pense no jogo jogado de verdade, no seu grupo, nas suas experiências. Tenha sempre ouvidos abertos mas nunca a ponto de descaracterizar a ideia, pois ela ainda é sua. Eu sou novo nisso, vai ser o primeiro jogo e espero que dê certo, se deu pra mim que nunca tive essa pretensão deve dar pra você, se quiser realmente lançar algo legal

Guilda dos Mestres: 

Agradeço demais pelo seu tempo!


Alex Silva:

Opa, eu que novamente agradeço e espero outro evento pra gente se esbarrar e terminar a aventura.