2ª parte de um bate papo interessante sobre criação do passado dos personagens.
Voltando à discussão sobre BG, desta vez, pra quem deseja realmente redigir um background para o seu personagem, comentarei alguns aspectos importantes para se levar em consideração.

Se você não leu a primeira parte, da uma conferida aqui e depois volta pra terminar a leitura.

Primeira coisa a se lembrar: contexto é BG.

Se, como Seger e Sheldon afirmam, no background devem estar os aspectos biológicos, sociológicos e psicológicos de um personagem, ao definir raça (biológico) e classe (sociológico) esta construção está começando. Já os aspectos psicológicos podem ser pensados de forma antecipada assim como desenvolvidos ao longo do jogo, como é a preferência de muitos. E isso é verdade, de certa forma, descrever a psicologia do personagem em texto para o mestre pode ser menos interessante que mostra-la ao interpretar.

Para aqueles que gostam e desejam escrever backgrounds para seus personagens, elencarei aqui algumas dicas do que pensar na hora deste desenvolvimento:

1. Apenas o necessário

Isso é de comum acordo entre os autores que trabalham com design de personagens: escolha apenas o que for necessário ser contado para escrever. Mesmo Seger afirmando que apenas vemos na narrativa a superfície do personagem, o profundo dele é invisível, esse “profundo” não precisa ser uma história detalhada de como ele cresceu, sobre tudo o que ele pensa ou quando perdeu seu primeiro dente de leite. Esses aspectos são irrelevantes para a história do jogo. Escolha elementos específicos que façam diferença no que o personagem é no início do jogo e apenas isso.

2. Entenda onde seu personagem está

Seja um cenário pronto de sistema ou de autoria própria, converse com o mestre sobre onde a campanha vai acontecer ou (o ideal, mas sabemos que pode ser complicado)leia sobre ele. Os cenários estão repletos de lugares, personagens e ganchos que podem oferecer ideias incríveis e se o mestre está criando um, pode-se inclusive colaborar com a sua criação!

Fazer um personagem inserido no cenário imbui ele de contexto e pertencimento, sendo mais fácil criar para ele e com ele, além de ser um respeito àquilo que está sendo proposto pelo mestre, afinal a diversão é de todos!

3. Pense nas motivações

O que motiva o teu personagem? Ele tem algum desejo ou objetivo? Até pode ser que não e seu grande objetivo seja sustentar a produção de sua pequena fazenda (e a aventura venha até ele!), mas será que ele não tem algum sonho, mesmo que distante? Somos sonhadores e almejamos coisas, desde sucesso, riquezas, amor, felicidade… Pense no que o seu personagem deseja para ele mesmo ou para os seus próximos. Por exemplo, a partir do momento que se escolhe uma classe, pode-se usar isso como ponto de partida para uma motivação: entrar para um grupo específico, se especializar em uma determinada técnica de combate etc. Ou então escolher motivações mais intensas: poder, vingança, glória. Pense aonde seu personagem quer chegar!

4. Compreenda que é a base para o início da história

Rechear o background de atos gloriosos, heroísmo e renome não é recomendado. Isso o personagem buscará durante do frontground, na campanha que está iniciando. Sempre lembre que o que está por vir é o que realmente importa e o BG é uma contextualização. Sendo assim, as informações contidas no histórico devem servir para compreender como o personagem chegou ao local onde ele está no início da campanha, suas motivações e porque ele é como é.

Claro que há quem goste de escrever contos enormes de feitos do passado, sinceramente, para um BG de personagem nível baixo e em início de campanha considero um equívoco.

Caso contrário, por que diabos um glorioso príncipe matador de dragões e um mago que fez um pacto de sangue com uma entidade ancestral vão salvar uma vila de ataque de goblins pela recompensa de 10 PO? Foque no que o personagem passou para querer iniciar uma aventura e no que aconteceu para molda-lo como é.

4. Ninguém é perfeito

Um personagem é uma representação mimética do ser humano. Mesmo que sendo de alguma raça ou espécie diferente nós criamos com base naquilo que conhecemos, ou seja, nós mesmos. Portanto, reconheça que seu personagem tem qualidades e defeitos e dê atenção a isso. Joseph Campbell, escritor do famoso O Herói de Mil Faces, já afirmava que o que interessa e atrai num herói é o aspecto imperfeito da humanidade, suas falhas e capacidade de superação. Então pense também nas falhas e imperfeições do personagem e não apenas em seus méritos. Perfeição não é crível e é chata.

5. Seja objetivo e escreva pouco

Isso poupa trabalho para ti e para o mestre. Textos muito longos e excessivamente detalhados podem ter apelo, porém, a grande maioria das vezes a verdade é que o mestre não usará tudo o que foi escrito, podendo ser, mais que uma perda de tempo, uma frustração em não ver o empenho do jogador ser aproveitado em jogo. Portanto, um histórico conciso, sucinto e objetivo podem ser muito mais úteis a uma longa redação. Foque nos pontos relevantes para a construção de quem seu personagem é, onde está, de onde veio e para onde vai e organize as ideias com simplicidade.

 

Agora crie seu personagem e divirta-se!

 

Referências:

CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. São Paulo: Pensamento, 2007.

SEGER, Linda. Como criar personagens inesquecíveis. São Paulo: Bossa Nova, 2006.

SHELDON, Lee. Desenvolvimento de Personagens e Narrativas para Games. São Paulo: Cengage do Brasil, 2017.

5 Steps to Writing a Killer RPG Character Backstory

Professora, pesquisadora e jogadora de jogos tabletop. Faixa-preta nas horas vagas e acha que sabe cozinhar.