1ª parte de um bate papo interessante sobre criação do passado dos personagens.

Uma questão que seguido entra em discussão nas comunidades de RPG é sobre a relevância ou não de criar um background – o famoso BG (backstory, história de fundo, como quiserem chamar) – de um personagem. Quero deixar claro que estou explanando a partir de um ponto de vista acadêmico, porém, sem linguagem acadêmica.

Essa discussão pode ser longa e não é só do RPG. Na academia, no que se refere a design de personagens para jogos, séries e cinema, essa discussão também é ampla. Vamos ver algumas questões.

Todo personagem tem BG.

Não tem choro, nem reclamação. É um fato. Um personagem só não tem BG se sua história é contada a partir de seu nascimento passando por toda a vida. Ainda assim, pode-se dizer que a história de como os pais se conheceram e vieram a ter um filho também é BG. Enfim, sempre existe. Ponto esclarecido.

Linda Seger (2005), roteirista e criadora de personagens para “Hollywood”, em seu livro “Como criar personagens inesquecíveis” (Argh! Odeio o nome deste livro, apesar de ser ótimo), esclarece que a “vida” de um personagem se divide em duas grandes fases: o backstory e o frontstory. Sendo o frontstory a narrativa em si, quando o jogo ou o filme começam, aquilo que o espectador/jogador se depara. Já o backstory/background é tudo o que aconteceu com esse personagem até o momento em que se inicia a narrativa. O que leva ele a estar naquele ponto. Mesmo que seja um mero camponês inexperiente que escute o chamado para aventura, ele nasceu e cresceu num meio, aprendeu e vivenciou coisas que formam seu caráter, índole e conhecimentos. Isso é background.

Concordando com Seger, Lee Sheldon (game designer focado em design de personagens e narrativa) no livro Character Development and Storytelling for Games (2004), afirma que existem informações importantes para serem delineadas num BG: biológicas, sociológicas e psicológicas.

As biológicas se referem às questões físicas: raça, etnia, colorações, altura peso, algum traço específico como uma cicatriz ou tatuagem. Nada que não possa ser resolvido em tópicos.

As sociológicas tratam sobre o ambiente, status social, crenças, ideologias entre outros. Esse camponês vivia em algum lugar, era pobre? Filho de algum líder? Simples operário que vivia tranquilamente sua vida? E os psicológicos que regem os traços de personalidade: temperamento, humor, loucuras, paixões, se é introvertido ou extrovertido etc. Deu pra entender!

Arte do novo Old Dragon

Amplitude do BG no RPG

Existem aqueles de uma linha old school que tende a excluir a ideia de BG, assim como jogos tipo WoD que fazem uso total disso. Repito: tudo tem BG! A diferença é como ele é utilizado e a profundidade que se dá a ele. Regra importante e que muitos se perdem e talvez esteja aí a birra da galera OSR:

o BG nunca pode superar a FS!!! O jogo é a narrativa! O mito, a história, a jornada precisam estar aí! Não no BG! O BG é um suporte narrativo!

Sendo assim, independente do sistema de jogo, fazer aqueles BGs cheios de façanhas, impotências e feitos memoráveis é um enorme erro a não ser que seja para um NPC. A história jogada deve ser maior que o passado. Isso também não significa que o personagem não possa ter vivenciado muitas coisas, que contribuíram para ele estar daquela maneira e naquele ponto no início do jogo. A amplitude do BG vai da necessidade da história e do estilo de jogo, mas o contexto é necessário para todos. Ninguém surge do nada de lugar nenhum.

Minha dica para você

Conheça o estilo de sua mesa e crie as informações necessariamente básicas para o seu personagem. Existem mestres que simplesmente não usam os BGs dos personagens, outros usam muito. Fazer um BG gigantesco e o mestre não usar pode ser frustrante. Assim como não fazer nada e deixar o mestre sem informações, pode atrapalhar algumas dinâmicas, ou fazer com que aqueles que tenham criado um mínimo estejam mais inseridos na história da mesa.

Pergunte ao seu! Agora, saber onde seu personagem vive, o que ele faz, quais são suas motivações e porque ele está ali naquele momento inicial é bom para conheceres o teu personagem e assim construir uma figura mais crível, mesmo que não tenha um grande histórico cheio de acontecimentos marcantes.

Lembrem-se: frontstry > backstory. De resto, se adapte a proposta entendendo que BG sempre existe.

Agora para de enrolar e vai criar teu personagem!

Boa diversão!

 

Mônica

 

Segunda parte deste post já está disponível aqui!