Os soldados mais fortes não são descobertos em tempos de paz e sim resistindo em meio suas guerras…

Soldados recebem armaduras para sua carne e ossos, mas devem fabricar as suas próprias para suas almas. Peça por peça. – Steve Erikson

Fantasia sombria devido aos elementos de horror. Enquanto alta fantasia trata de dragões e magos com poderes quase divinos, a Fantasia Sombria tende a ser mais próximo da realidade, onde a fantasia (o sobrenatural) aparece na forma de lendas e folclore. Magias não salvarão o dia do grupo, guerreiros não usam armaduras reluzentes ou lutam por causas nobres. O mundo não dá a mínima se você vive ou morre, e as chances estão contra vocês. O inimigo usa feitiçaria. Apenas com sapiciência, coragem e irmãos de armas será possível vencer.

Fantasia militar por causa das histórias de guerra, onde você pode encontrar inspiração na primeira e segunda guerra. Guerra é um inferno. Soldados dormindo na lama, longas marchas e lidar com a fome…além do sono eterno que chegará inevitavelmente a todos.

O jogo não é justo. Coisas ruins acontecerão aos personagens, missões são perigosas e não é incomum os personagens adquirirem ferimentos, maldições e outras mazelas durante sua agenda. Mas há sempre uma recompensa…seja um tesouro, paz de espírito ou qualquer outra coisa que o Mestre do Jogo possa oferecer.

Conceitos sobre o mundo

1. Vendo de cima, a vida nesse mundo é boa

O mundo está em evolução! Há uma busca por conhecimento. As cidades estão crescendo. A economia está movimentada. As taxas são mínimas. Ouviu falar da quantidade de ouro que a marinha Tileana recuperou no tesouro da Lustria no ano passado? (Os nativos? Quem se importa com os nativos? Só um bando de homens lagartos que não sabem o valor daquilo em que sentavam…) As colônias estão se multiplicando. As terras estão lá para serem povoadas. Somos mais ricos que nossos pais e avôs. Somos menos ignorantes. O mundo é nosso para ser dominado.

A elite é complacente, não por serem estúpidos, mas da perspectiva deles, tudo está indo bem. Não querem saber das queixas dos camponeses.

2. Vendo de baixo, a vida é terrível

Tudo está sofrendo mudança. Os antigos costumes estão sendo questionados. A ordem das coisas está caindo por terra. Pessoas se acumulam em enxames nas cidades sujas, esperando a morte chegar. Existem coisas à espreita nas florestas. Os trabalhadores dizem ter visto ratos que tinham a altura de um homem nos esgotos. Homens sapos atiram dardos envenenados em quem ousa atravessar os pântanos e os deixam sangrando, com as órbitas dos olhos vazias, aguardando mais tesouros para tomar. O mundo é brutal. Selvagem. Os desbravadores encontraram colônias destruídas nos últimos tempos. O único sinal do que poderia ter ocorrido ali é a palavra YALDABAOTH queimada nas paredes das construções.

O progresso está acontecendo, mas ninguém fala do terrível preço que é pago com sofrimento humano. Os pobres, diferente dos ricos, não tem o luxo para ignorar os fatos.

3. O Caos é subestimado

A narrativa oficial é que o mau foi extinto a centenas de anos por um herói ou grupo de heróis, desde então não há nada com o que se preocupar. Pode ser que as vezes uma cabala de homens sem juízo tentem adorar forças sinistras, mas a ideia de que o Mau vai retornar é uma ideia ridícula nos tempos de hoje.

O fato é que o Caos está intrínseco a sociedade. No coração das matas, existem espaços ainda não desvendados. Entre as estradas, homens fera se multiplicam escondidos. Os ricos praticam atos de luxúria e alimentam a blasfêmia, enquanto vão diante da sociedade falar de moral e bons costumes. Onde os pobres moram, habita o desespero que é causado pelas doenças. Os traumas dos soldados que encontram com a violência, alimentam o trono dos deuses da guerra, forjando um trono feito de crânios humanos banhados em sangue. As companhias mercenárias são psicopatas, trabalhando pelo sangue para qualquer um que pague.

O Caos, em outras palavras, é uma metáfora pelo custo da vida em sociedade. As autoridades ignoram, simplesmente pelo fato da ameaça ser grande demais para qualquer um reconhecê-la.

4. A ordem social está a beira do colapso

Pense na França a beira de suas guerras religiosas. Da Alemanha instantes antes da Guerra dos 30 Anos. A sociedade é um mar de contradições – ricos vs pobres, antigo vs novo, religião vs religião – e qualquer centelha pode iniciar um mar de loucura. A ordem feudal está caindo com a ascensão da burguesia e o governo possui sua dinâmica alterada constantemente. A arrogância faz com que todos acreditem que um homem com uma lança possa resolver todos os problemas do mundo.

A fragilidade da sociedade e seus próprios atos de auto sabotagem, provocam o Caos a se espalhar e avizinhar uma catástrofe.

5. Os personagens são pessoas à margem da sociedade que enxergam o mundo como ele é

Caçadores de ratos. Latoeiros. Limpadores de fossa. Ladrões de tumbas. Soldados. Saqueadores. Viciados. Foras da lei. Esses são os nossos protagonistas, são os únicos que terão um vislumbre do que vai acontecer em breve.

As classes dominantes vivem em uma realidade distinta.

As classes baixas, em sua labuta diária pela sobrevivência, não tem tempo para enxergar através da realidade. Coisas ruins acontecem com quem pisa fora da faixa.

Apenas aqueles à beira da sociedade que conseguem ver por alguns instantes. Os esqueletos nos armários. Os ghouls que se banqueteiam nos cemitérios. As bestas que se aglomeram na escuridão das florestas. As figuras encapuzadas que cutucam a fogueira para que as chamas tomem conta do mundo. Os homens e mulheres que visitam o antigo monolito nas noites de lua cheia.

Ninguém ouviu falar do que os personagens vão viver.

Ninguém quer ouvir sobre a verdade do mundo.

E ainda assim, eles serão os patrulheiros da fronteira que impede o mundo atual de se tornar um palco de completa loucura.

6. Aventureiros se escondem nas sombras

As razões pelas quais eles se aventuram, não são motivo de orgulho. As coisas caem no colo deles por acidente. Quando uma série de desaparecimentos acontece, as autoridades não dão a mínima para confrontar o perigo. Sacerdotes acusam seus próprios colegas de enxergarem o fim do mundo em antigos textos apenas para alardear a sociedade. E quando uma estrada muda de lugar, devido “ao folclore local”, ninguém dá a mínima. Lendas urbanas tomam conta das cidades. Ninguém quer arriscar o próprio traseiro por ouro e bebida…mas invejam quem o faz.

O grupo de personagens terá fama. Não como heróis, mas como pessoas que fazem tudo pelo preço certo. E o nó da forca flerta com a ampulheta que é a contagem regressiva das suas mortes.

7. Superstições estão certas e erradas ao mesmo tempo

A fábrica de causos ajuda a sobreviver lá fora, porém nem tudo que é escrito deve ser lido. Ninguém sabe no que acreditar. Nobres e estudiosos zombam do conhecimento popular, nas áreas rurais predomina o conhecimento passado no “boca a boca” e as histórias sobre bruxas assombram. As entidades religiosas ignoram os atos dos caçadores de bruxas. Ridicularizam quem luta contra o sistema.

As desilusões dos loucos, até mesmo podem fazer sentido. O conhecimento do que houve no passado é perdido a medida que a elite deseja alimentar a ignorância do povo. Seu maior desejo é que o povo esqueça dos atos de crueldade que seus antepassados sofreram. O Jogo deve possuir metáforas ao redor de atitudes cada vez mais iluminadas em relação ao tipo de pessoas que haviam sido anteriormente objeto de perseguição injusta, e por sua rejeição desdenhosa das preocupações totalmente válidas dos pobres.

8. Os personagens dos jogadores serão a escória

É necessária uma certa dose de estupidez para se fazer um bom soldado. – Florence Nightingale

É aqui que o diagrama de vida entra. O mundo está mudando. A hierarquia das coisas não é rígida como costumava ser. O que você é hoje, não dita o que você será amanhã. Na verdade, manter os olhos abertos para oportunidades e saber quando dizer “Sim” ou “Não”.

Uma campanha pode cobrir uma passagem de tempo de meses ou anos. Os jogadores deverão ser capazes de dizer ao fim dessas histórias: “Bem, quando criança trabalhei como Servo, mas quando tive sinais de maturidade me tornei um Agitador, isso irritou as pessoas certas e me tornei um Fora da Lei, mas roubar dos pobres nunca me deu orgulho…então vivi como Vagabundo e em minhas andanças recebi um chamado, só então me tornei um Frade.”

A vida precisa ser vivida.

9. A ambientação é de baixa fantasia e baixa magia

As maioria das pessoas viverá a vida sem esbarrar com um não humano. Histórias sobre Elfos Negros são contadas com horror por colonialistas. Ver uma torre branca erguida em uma ilhota, trará lendas até a 4ª geração dos tripulantes do navio. Elfos nas florestas. Goblins são de conhecimento popular e evita que crianças enfiem seus narizes nas cavernas. Anões são distantes e isolacionistas, com seus próprios problemas para tratar. Os Mistérios da Magia e Milagres Divinos raramente são presenciados, bem como as figuras capazes de tais feitos. “Vampiros? Ok Jonas, pare de contar essas besteiras para meus clientes ou vou ter que te expulsar.”.

Os antagonistas serão na maioria criminosos, cultistas, conjuradores, religiosos fanáticos, homens fera e mortos que caminham. Você poderá ter anos de campanha sem que seus jogadores consigam ao final dizer se naquele cenário existem dragões ou não.

Ao Mestre, com carinho…

Guie seus jogadores com capricho. Em particular, jogue verdades e não verdades a seus jogadores, deixem que eles descubram em jogo se seus comentários são verdade. Subverta aspectos religiosos. Brinque com o mundo real dando toques de fantasia.

Abuse das lendas sobre o “Anão Matador de Trolls” sem que eles sejam capazes de se encontrar com um. Torne as magias que pareçam não ter utilidade as mais valiosas em jogo.

Os jogadores deverão ser pequenos cães. Cruéis para sobreviver, mas pequenos os suficientes para fugir pela multidão.

Referências literárias:

– A Companhia Negra, Glen Cook
– Jardins da Lua, Steve Erikson
– Mistborn Império Final, Brandon Sanderson
– Ordem Vermelha, Felipe Castilho
– O Poder da Espada, Joe Abercrombie
– O Rei do Inverno, Bernard Cornwell
– Guerra do Velho, John Scalzi
Filmes, séries e animações:
– Peaky Blinders
– Vikings
– Black Sails
– Sons of Anarchy
– Resgate do Soldado Ryan
– Berserk
– Gangues de Nova York
– Bastardos Inglórios
RPG:
– Blades in the Dark
– Band of Blades
– AD&D 1st
– Bárbaros da Lemúria
– Reinos de Ferro
– The Black Hack

Autores das artes usadas na postagem
https://www.artstation.com/francisgoeltner
https://www.artstation.com/carloscastilho
https://www.artstation.com/milemicic
https://www.artstation.com/wesleyedwardsart